Sexta-feira, 27 de Novembro de 2020
Editorial

Injustiça com as próprias mãos


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23/10/2020 às 06:57

Os casos recentes de violência envolvendo motoristas que trabalham nos serviços de transporte mediados por aplicativos revelam a situação de insegurança que vivem condutores e passageiros. Em Manaus já são comuns as redes de autovigilância bancadas pelos próprios motoristas. Nesses sistemas independentes, os condutores ficam em contato permanente entre si e se alguém vai para uma área com maior incidência de assaltos ou embarca um passageiro suspeito, avisa a central por meio de códigos, método similar ao empregado por cooperativas e associações de taxistas. Atitude perfeitamente legítima e necessária já que as empresas que operam os aplicativos demoram em adotar medidas mais concretas de apoio a seus colaboradores.

No entanto, o direito de se defender não autoriza ninguém a cometer crimes. Ao executar suspeitos, os condutores infringem a lei e passam a representar ameaça para qualquer um que possa ser considerado “suspeito”. Em meio à onda conservadora que vivemos, muitos defendem tais atitudes alegando que é a única forma de fazer a justiça funcionar e que “bandido tem mais é que morrer”, entre outras argumentações desse tipo, muito comuns nas redes sociais. A questão é que não cabe ao cidadão comum decidir quem é culpado, tampouco condenar e executar a pena de morte em ato contínuo.

É muito comum que essa postura resulte na morte de inocentes, como já aconteceu em Manaus. Em agosto de 2018 o “Tribunal das ruas” executou por linchamento o estudante Kayube de Carvalho Oliveira, de apenas 16 anos. Aluno do Colégio da Polícia Militar, Kayube estava a caminho da igreja, como costumava fazer aos domingos, quando foi confundido com um ladrão. Foi o que bastou para que um grupo formado por populares, mototaxistas e transeuntes espancassem o jovem com pedaços de pau até a morte e jogassem seu corpo em um igarapé junto com os instrumentos do assassinato. Acreditando ter feito justiça, essas pessoas mataram um inocente.

Se há indícios de que alguém atua em assaltos contra motoristas – ou em quaisquer outros crimes – o caso deve ser levado às autoridades para que as providências legais sejam tomadas. Quem opta pela “justiça” com as próprias mãos apenas revela sua natureza criminosa e deve responder por seus crimes.


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