Sexta-feira, 07 de Agosto de 2020
Editorial

Cidadão, sim!


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12/07/2020 às 00:07

Na semana que passou, chamou a atenção do País a situação do casal que xingou um fiscal da Prefeitura do Rio de Janeiro que os orientava a usar máscara e seguir as normas sanitárias. Apesar de causar perplexidade em alguns, a atitude daquelas pessoas, infelizmente, é muito comum. As pessoas sentem essa necessidade de se projetar acima dos demais, como se pertencessem a um patamar superior de existência. É óbvio que as pessoas são diferentes e vivem situações sociais distintas, mas aspectos como grau de escolaridade, saldo bancário ou declaração de bens não podem ser critério para classificar as pessoas como melhores ou piores.

As desigualdades existem e são praticamente uma marca registrada do nosso País. Essas disparidades foram acentuadas durante a pandemia de covid-19, quando ricos dispõem de UTIs e cuidados especializados e pobres morrem nos hospitais de campanha. A comoção em torno da doença que já matou mais de 70 mil no Brasil, em vez de unir pessoas de diferentes classes, muito frequentemente teve um efeito oposto, como a situação que culminou com a frase agora famosa: “Cidadão, não. Engenheiro civil, formado. Melhor do que você”. Trata-se de só mais uma variação do “você sabe com quem está falando?” e traz à tona velhas reflexões: como ser “engenheiro civil formado” ou ter qualquer outra graduação pode tornar uma pessoa melhor ou pior que outra? É dura a vida dos fiscais.

Fiscal, seja de que área for, convive com a hostilidade diária de pessoas mal educadas e tão inseguras que precisam se afirmar como “melhor” que alguém apenas para sentir-se bem. Em Manaus, como em qualquer outro lugar, não é diferente. Recentemente, uma nova equipe de fiscais a serviço da Agência de Defesa Agropecuária do Amazonas (Adaf) entrou em exercício após aprovação em concurso público. Logo na primeira atividade de fiscalização, em uma proeminente loja de produtos agrícolas, tiveram contato com a agressividade de quem, por qualquer motivo, se acha melhor. As classificações como melhores ou piores estão por toda parte: se não é desta religião, se não segue tal postura, se não vota no fulano, se é feio, se é gordo, se é gay, se é pobre... tudo serve como falso parâmetro de classificação. E quem lança mão de tais critérios, sem perceber, recua um pouco em sua condição de ser humano, apequena-se ao ampliar seu nível pessoal de futilidade.


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