Sexta-feira, 22 de Novembro de 2019
LEVANTAMENTO

Ponte Rio Negro registra um suicídio a cada quatro dias

Projeto 'Ponte Segura', apresentado nesta quarta-feira (15) na ALE-AM, reivindica a elevação do gradil da ponte, a fim de prevenir suicídios. Proposta está em análise



WhatsApp_Image_2019-10-16_at_15.25.45_2BA973BB-A71A-4601-9381-EF70B6C67CA3.jpeg Foto: Divulgação
16/10/2019 às 15:42

A Ponte Jornalista Phelippe Daou, mais conhecida como Ponte Rio Negro, que liga Manaus a Manacapuru, já registrou 66 ocorrências de suicídios neste ano, o equivalente a um suicídio a cada quatro dias. A informação foi dada pela médica psiquiatra e especialista em suicidologia, Alessandra Pereira, durante cessão de tempo ao projeto “Ponte Segura”, na sessão plenária da Assembleia Legislativa do Amazonas (ALE-AM), nesta quarta-feira (16).

De acordo com os dados da Fundação de Vigilância em Saúde (FVS), de 2016 a 2018 ocorreram 628 óbitos por suicídio no Amazonas. Três municípios lideram as ocorrências - Manaus, São Gabriel da Cachoeira e Tabatinga. O projeto debatido na ALE-AM detecta no mínimo de quatro a 10 ocorrências por mês.



“Para cada suicídio oficial nós temos, pelo menos, três que não foram registrados. Temos uma média de 17 pessoas que estão tentando tirar a própria vida. Em agosto tivemos quatro contenções e 14 pessoas atendidas no plantão da ponte realizado pelo projeto ‘Amigos da Ponte’. Em setembro, foi registrado 30 ocorrências e neste mês já soma 10”, declarou a médica.

O projeto reivindica a elevação do gradil da Ponte Rio Negro para impedir o acesso de pessoas com ideação suicida. A médica psiquiatra afirmou que a prevenção ao suicídio, segundo estudos internacionais, ocorre de duas formas: a restrição de acesso aos meios letais e com o tratamento de transtornos psíquicos.

“Cerca de 98% dos casos de suicídio possuem transtorno mental de base que quando tratado a pessoa muda de ideia. O nosso objetivo é colocar uma proteção emergencial na ponte que inicie com uma rede de proteção e em seguida com o aumento do gradil. Aqui no Amazonas nós não vamos falar em prevenção real enquanto não colocar a grade mais elevada dificultando o acesso”, defendeu a especialista.

O deputado estadual João Luiz (Republicanos) apresentou um requerimento ao governo do estado para colocação do gradil na ponte. O parlamentar disse que já esteve reunido com o secretário estadual de infraestrutura, Carlos Henrique Lima, e está em andamento um estudo de custos.

“Não é uma obra simples devido o tamanho da ponte. Técnicos precisam se debruçar sobre o tema para vê custos uma vez que nós já pesquisamos e são elevados. Os debates fora do Amazonas e em outros países mostra que há possibilidade (de instalação). Se o governo está disponibilizando que a Amazonas Energia coloque cabos de energia na ponte de alguma maneira a empresa dê a contrapartida seja na manutenção ou até mesmo engajar esse projeto”, declarou o parlamentar.

O deputado e vice-líder do governo, Álvaro Campelo (PP), propôs como solução parcerias público-privadas com empresas do Polo Industrial de Manaus. “Isso já é realidade em outras cidades. Nós temos a possibilidade de em contato com o distrito industrial encontrar uma empresa que esteja disponível a participar desse movimento. A Assembleia pode capitanear isso para que se torne uma realidade e não tenhamos os índices de suicídio aumentando na cidade de Manaus”, disse.

>>>Leia mais: Projeto ‘Ponte Segura’ surge como solução para suicídios no cartão postal

Ausência de psiquiatras

De acordo com a especialista em suicidologia, após a consulta com o psicólogo as pessoas esbarram na dificuldade de encontrar atendimento psiquiátrico em virtude da ausência desses profissionais na rede pública de saúde. Segundo a médica, é preciso no mínimo a inserção de 20 psiquiatras.

“Não tem psiquiatra para atender essa pessoa, medicar e fazer um tratamento específico. Nós não podemos de forma imediata resolver o acesso à psiquiatria, mas o mínimo é evitar que as pessoas continuem a tirar a própria vida através da ponte. Precisamos compreender que o suicídio é uma questão de política pública desde 2014, quando a ONU colocou no manual mundial. Nesse tempo 83% dos países diminuíram os indicadores de suicídio enquanto no Brasil houve aumento. Não podemos mais continuar omissos em relação a essa situação”, pondera.

Ação

A psicóloga Katty Barros é uma das integrantes do grupo ‘Amigos da Ponte’ que atua na pósvensão ao suicídio. Servidora da rede estadual de ensino, ela identificou dentro das escolas a ocorrência do suicídio e da automutilação.

“Muitas vezes os nossos alunos já cometeram suicídio e tentaram se jogar da ponte. A partir dessa angústia fizemos uma investigação e detectamos que um dos vigilantes que atuam na ponte já faziam esse trabalho de contenção mesmo ser saber”, disse.

De acordo com a psicóloga, o grupo formado por cinco voluntários realiza o plantão de quatro horas por dia na ponte e, em contato com os vigilantes que atuam na ponte que comunicam as tentativas, acompanham a pessoa até o Centro Psiquiátrico Eduardo Ribeiro, comunicam a família e apontam e articulam possibilidades de tratamento, por exemplo, os projetos ‘Depois da Ponte’.

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