Terça-feira, 02 de Março de 2021
VOLUNTARIADO

Como a ajuda de jovens amazonenses faz a diferença na pandemia em Manaus

A nova onda da Covid-19 não trouxe apenas notícias ruins. Em meio ao caos da pandemia, jovens amazonenses unem forças para arrecadar o que podem aos hospitais da capital amazonense



zDOA_OES_1_E9F12C91-DB58-41B9-930F-9942EC83B6F3.JPG Doações são arrecadadas e entregues diariamente em hospitais da capital. Foto: Junio Matos
23/01/2021 às 09:44

Em meio ao colapso hospitalar causado pela chegada da segunda onda do novo coronavírus a Manaus, desde o início de janeiro, a solidariedade veio também veio em dobro, fazendo surgir um novo tipo de herói manauara: o voluntário da pandemia. Jovens de todas as idades se mobilizam diariamente, formando uma rede de compaixão e colaboração mútua para arrecadar doações a familiares, pacientes e profissionais de saúde de Manaus.

Organizados em movimentos sociais com nome bem definidos, ou até mesmo sem qualquer tipo de identificação social prévia, estes jovens encontram nas redes sociais e nos aplicativos de mensagens instantâneas, como o WhatsApp, um modo de se juntar em uma corrente para fazer o bem. Entre os principais itens doados, os valiosos cilindros e balas de oxigênio, itens que se tornaram escassos em toda a capital manauara, além de EPIs, garrafas de água mineral e até comida. Entre as maiores dificuldades, a logística para aquisição e entrega dessas doações.



A ação voluntária da população manauara tem sido significativa e fundamental para as políticas de combate à Covid-19, já tendo arrecadado, por exemplo, mais de 12,3 mil Equipamentos de Proteção Individual (EPI) à Central de Medicamentos do Amazonas (Cema), que distribui para todas as unidades da rede estadual de saúde.

União pelo bem

Uma das principais campanhas, a S.O.S AM é fruto de idealização conjunta dos grupos Salaada Solidário, Bora Ajudar!, Amor sem Caô, Instituto Ágape, Mais Amor Manaus e Somar. O objetivo deles é o de arrecadar doações que serão revertidas em compras de itens necessários para os atendimentos hospitalares em Manaus. Thiago Souto, coordenador da campanha, comenta sobre como os participantes do movimento buscam no desejo de ajudar a força de vontade para superar as dificuldades das ações solidárias.

“Estamos envolvidos na compra de cilindros de oxigênio, carretas para transporte, medicação, EPIs e tudo o que os hospitais estão precisando. Estamos com bastante dificuldade com essa logística, mas estamos conseguindo levar em pequenas quantidades. É um sentimento de orgulho e de esperança. A doação dos artistas tem sido fundamental, mas tem sido muito prazeroso ver pessoas daqui doando o pouco que tem também”, disse o coordenador, que também integra o projeto Saalada Solidário.


Arrecadações são convertidas em insumos para profissionais de saúde, familiares e pacientes nos hospitais. Foto: Divulgação

Thiago também explicou como a campanha surgiu e se transformou. Segundo ele, os eventos do dia que ficou conhecido como ‘o pior da pandemia em Manaus’, em 14 de janeiro, quando diversas pacientes morreram asfixiados assim que o abastecimento de oxigênio das unidades hospitalares acabou, fez com que a campanha tomasse novos rumos ainda mais importantes.

“A campanha inicialmente tinha como objetivo oferecer apenas os insumos que já estavam em falta nos hospitais, como luvas, máscaras, fraldas geriátricas etc. Quando chegou essa demanda no dia em que morreram várias pessoas por falta de oxigênio, voltamos nossa atenção para os cilindros. Essa é uma força-tarefa que conseguiu um montante de quase R$ 630 mil em doações durante três dias, suficientes para comprar 1.400 cilindros, além de receber outros 250 de diversas partes do Brasil”, destacou.

O trabalho continua

Somente na semana de início da mobilização pelas doações, a S.O.S Amazonas já havia conseguido comprar 140 cilindros e 38 concentradores de oxigênio que chegaram no sábado (16), em Manaus. O frete do transporte aéreo foi fornecido pelas linhas aéreas Azul e Latam, que não cobraram pela operação. Até o momento, o S.O.S Amazonas entregou pelo menos 300 cilindros, graças ao trabalho de mais de 150 membros do grupo, segundo Souto.

Somente nessa sexta-feira (22),  o grupo entregou cinco cilindros de remoção, de dez e quinze litros, ao Instituto Marina Lindu, que faz parte do complexo do Hospital e Pronto-Socorro (HPS) 28 de Agosto, um dos principais centros de tratamento da doença no Amazonas.


Doação de cilindros no HPS 28 de Agosto. Foto: Junio Matos.

“Vamos continuar entregando cilindros até a situação se estabilizar. Agradeço a todos que têm nos ajudado e nos dado apoio para que possamos continuar a ação da melhor forma possível, disse o coordenador Thiago Souto.

Furto de equipamentos

Além das dificuldades logísticas, a corrente do bem, quase que inevitavelmente, ainda teve que lidar com pessoas que praticariam o mal. Na última segunda-feira (18), cinco ativistas foram furtados enquanto atuavam na cobertura da busca por cilindros de oxigênio. O grupo teve equipamentos de trabalho e pertences pessoais levados pelos criminosos. Ao A CRÍTICA, o grupo disse que estava fazendo imagens do movimento de pessoas na fila que esperavam ser atendidas para comprar a recarga de cilindros de oxigênio, quando o motorista precisou ir até o carro da equipe e constatou o crime. A ocorrência, no entanto, não os impediria de continuar a campanha.

Aperfeiçoando a comunicação

De olho em formas de melhorar a interação entre os participantes dos movimentos, doadores e os próprios profissionais de saúde, alvos da campanha, os integrantes do S.O.S Manaus tiveram a ideia de lançar um site para facilitar a comunicação entre as partes envolvidas. Sérgio Oliveira, um dos criadores do site https://sosmanaus.wixsite.com/covid, explicou como o projeto saiu do papel.

“Nós queríamos ter um contato direto com o pessoal da saúde para que eles nos passassem a real necessidade. Ao longo do dia, nós fazemos atualizações para informar aos grupos de doação o que exatamente está sendo mais necessitado lá dentro dos hospitais. Estamos começando também a fazer essa triagem com o pessoal do interior” revelou o voluntário.

Ainda mais ajuda

Um exemplo da dimensão que a solidariedade em Manaus tomou é a quantidade de movimentos. Além dos grupos que integram a S.O.S AM, outros grupos também fazem o possível para poder ajudar como podem. É o caso do “Time do BeM”, grupo criado com objetivo de prestar atendimento aos familiares dos pacientes doentes.

Segundo Antonio Neto, presidente do grupo, o objetivo é pelo menos tentar amenizar a dor do trauma vivido por familiares nas últimas semanas. “O sentimento é de amor ao próximo. Várias pessoas estão passando por situações horríveis que nunca pensaram em passar, cada um tem que ter um pensamento solidário e pensar no amanhã. Hoje são eles, amanhã pode ser com a gente”, apontou.

Recentemente um grupo fez bastante sucesso nas redes sociais, é o “Norte pelo Norte”, grupo de 21 participantes a frente e vários grupos maiores descentralizados em grupos do aplicativo WhatsApp, mas todos com o objetivo de se mobilizar para ajudar. Eles coletam dinheiro de doações online e convertem no que as pessoas precisam. Segundo social mídia e voluntária Maria Clara, o trabalho é voluntário e bem organizado.


Em uma das ações, o grupo 'Norte Pelo Norte' levou água mineral para os hospitais. Artigo em falta nas unidades. Foto: Divulgação

“Checamos com os distribuidores de Manaus, orçamos esse material, compramos e levamos até os hospitais, SPA’s e comunidades que estão precisando. Literalmente, estamos fazendo o trabalho da Secretaria de Saúde, só que em pequena escala. Fazemos escalas, há pessoas que trabalham pela manhã e outras que trabalham a noite no grupo de doações. Compramos desde oxigênio, até comida e água para dar para os profissionais de saúde e para os acompanhantes dos pacientes”, destacou.

A voluntária explicou que a ação teve início de forma espontânea nas redes sociais. “Somos todos jovens e estamos na ativa na linha de frente no combate ao coronavírus. A gente se mobiliza muito nas redes sociais, que foi onde começamos e depois nos dividimos para verificar onde está precisando mais de ajuda”.

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Repórter do acritica.com
Jornalista formado pelo Centro Universitário do Norte (Uninorte), natural do município de Coari-AM

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