Terça-feira, 14 de Julho de 2020
CUIDADO ATÉ O FIM

Enfermeiro morto com Covid-19 dedicou últimos momentos da vida a ajudar pacientes

Manoel Conceição Santos, que tinha 42 anos, morreu durante atuação na linha de frente contra o coronavírus no SPA do Alvorada. Muito mais que estatística, ele deixou uma história de vida, nome, sobrenome, amores e saudades



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14/05/2020 às 11:20

No Amazonas, centenas de famílias já conhecem de perto uma dor que tem afetado milhões de pessoas no mundo todo – a perda de uma pessoa querida para o novo coronavírus. Mais do que números, eles têm nome, sobrenome, amores. Entre os profissionais da saúde vitimados pela pandemia, temos o enfermeiro Manoel Conceição Santos, 42, que era o amor de alguém, assim como cada um dos mais 1 mil mortos notificados pela Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM).

Atuando na linha de frente do enfrentamento à Covid-19 no Serviço de Pronto Atendimento (SPA) Alvorada, zona Centro-Oeste de Manaus, o enfermeiro Manoel Conceição faleceu no último Domingo de Páscoa (12), um dia depois de manifestar os primeiros sintomas da doença.



No dia 11 do mês passado, um sábado, ele acordou com falta de ar. À noite ele apresentou uma tosse seca, e no domingo ele, que era diabético e hipertenso, teve uma parada cardiorrespiratória e morreu antes mesmo de ser internado na Unidade de Terapia Intensiva de um hospital da rede privada.

O primeiro exame feito quando ele deu entrada no hospital testou positivo para Covid-19. Deixou esposa, um filho e diversos pacientes admiradores de sua atuação profissional marcada pela empatia e dedicação.

Família

Um dos maiores sonhos de Manoel era ser pai, o que ele realizou com a chegada do pequeno Heitor, de quatro anos, fruto do casamento de cinco anos com a técnica em enfermagem Fátima Vinhote.

“Conheci o Manoel indo para o trabalho. Ele puxou assunto e percebemos que tínhamos muito em comum (ambos éramos da área da saúde). Pouco tempo depois começamos a namorar. Um dos momentos mais marcantes foi quando eu descobri que estava grávida. Ele adorava ser pai. Estávamos tentando ter mais um filho, mas infelizmente isso não será possível”, lamenta.

Manoel era conhecido por ser extremamente dedicado à família. Quando não estava nos plantões no SPA Alvorada, onde atuava há um ano e oito meses, ele gostava de passear com a mulher e o filho – adorava levá-los a balneários e restaurantes.

“Eu admirava a inteligência dele. Ele era estudioso. Nas suas folgas, ele sempre tirava um tempo pra ler livros da área da enfermagem. Ele tinha várias coleções e lia todos elas. O Manoel estava em um bom momento profissional, pois ele passou em um processo seletivo para trabalhar em um hospital que ele sempre quis trabalhar. Estava feliz”, lembra Fátima.

Quando os primeiros casos do novo coronavírus começaram a ser registrados em Manaus, na primeira quinzena de março, e a procura nas unidades de saúde aumentaram, os plantões de Manoel se tornaram cada vez mais cansativos.

“Ele sempre me falava das dificuldades que enfrentava no dia a dia, como a falta de equipamentos de proteção individual, medicamentos etc. No último plantão dele, ele chegou muito triste, pois havia morrido dois pacientes com Covid-19. Isso mexeu com o psicológico dele”, lembra ela.

Profissional humano

Um desses pacientes era o feirante Francisco Azevedo, 72, que faleceu no dia 10 de abril no SPA do Alvorada, com quem Manoel ficou bem próximo. A filha do aposentado, a turismóloga Eriana Azevedo, lembra com carinho da dedicação demonstrada pelo enfermeiro com o seu pai.

“Desde a entrada do meu pai no hospital até no dia da sua morte, o Manoel foi um profissional que demonstrou uma humanidade imensa. Ele chegou a fazer uma chamada de dentro do isolamento do telefone dele para o meu número, para que eu pudesse falar com o meu pai”, recorda.

Por morar próxima ao SPA Alvorada, Eriana soube que havia falecido um enfermeiro que trabalhava no hospital. Preocupada, ela mandou mensagem para saber se Manoel estava bem.

“A esposa dele me informou que ele havia falecido no Domingo de Páscoa, dois dias depois do meu pai. Fiquei extremamente sensibilizada com a notícia. Das vezes que conversei com o Manoel, ele sempre me falava da família, do filho, do caos que ele estava vivendo no hospital. Em tempos de tanta falta de empatia, encontrar pessoas como ele que, mesmo em meio a uma crise, preocupa-se verdadeiramente com o outro, nos dá esperança”, relatou.

Saudade

Com a morte repentina do enfermeiro, ficaram os planos em aberto e a saudade. O filho, Heitor, que completou quatro anos na última sexta-feira (8), embora ainda saiba pouco a respeito da morte, tem sentindo a ausência do pai à sua maneira.

“No momento, eu ainda não falei nada a respeito [da morte do pai] - ele ainda não entende bem o que está acontecendo. Tento não chorar na frente dele, sabe”, conta a técnica em enfermagem Fátima Vinhote. “Esse ano finalmente iríamos sair do aluguel e nos mudaríamos para a nossa casa própria. Está sendo um momento muito difícil”.

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Repórter do caderno Cidades do jornal A Crítica. Jornalista por formação acadêmica. Já foi revisor de texto de A Crítica por quatro anos e atuou como repórter em diversas assessorias de imprensa e publicações independentes. Também é licenciado em Letras (Língua e Literatura Portuguesa) pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

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