Terça-feira, 14 de Julho de 2020
pesquisa

Em Manaus, 53,4% das casas são muito próximas e lotadas, diz IBGE

Um terço da população do Amazonas vive em áreas de grande concentração urbana, os aglomerados subnormais, que dificultam o isolamento social e pode facilitar a disseminação da Covid-19



fam_lia_2DB9EBD7-0784-415E-AF53-F25233432B04.JPG Eliane mora com 10 pessoas em uma casa no bairro Zumbi dos Palmares. Fotos: Euzivaldo Queiroz
21/05/2020 às 06:57

Nascido de uma invasão e um dos mais bairros mais conhecidos e populosos da cidade, o Zumbi dos Palmares 1, na Zona Leste da cidade, é um exemplo da existência e resistência de famílias nos chamados “aglomerados subnormais” urbanos, que são caracterizados, entre outras particularidades, pela densidade de edificações extremamente elevada, o que dificulta o isolamento social e pode facilitar a disseminação da Covid-19.

Um levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) que fazia parte da preparação para o Censo 2020, denominado “As Distâncias dos Aglomerados Subnormais para as Unidades de Saúde”, identificou que o Amazonas é o estado brasileiro que apresentou a maior proporção de domicílios em aglomerados subnormais.



No total, foram contabilizados 393.995 domicílios nessa condição, que representavam 34,6% do total de domicílios ocupados. Entre municípios do Brasil  com mais de 750 mil habitantes, Belém (55,5%), Manaus (53,4%) e Salvador (41,8%) apresentaram as maiores proporções de domicílios em aglomerados subnormais.

O estudo foi divulgado nesta semana antecipadamente  como forma de fornecer à sociedade brasileira informações para o enfrentamento da pandemia.

No bairro da capital amazonense que leva o nome do negro guerreiro, duas das milhares de famílias do local que tentam escapar do novo coronavírus mesmo tendo contra si um grande número de pessoas dentro de casa contaram suas histórias para A Crítica. Há 11 pessoas morando em ambas as residências.

Eliane Cruz de Almeida, 43, mora em uma delas, uma casa na rua Júlia Mafra, no Zumbi, com o marido, o autônomo Nídio Curica Mafra, e mais nove pessoas entre filhos, netos e um genro.

A casa tem três quartos e os dez familiares se dividem entre os dois pais e mais três filhos em um dos quartos, uma das filhas mais esposo e dois filhos e, no terceiro, as duas filhas maiores de idade em outro.

“Estamos aqui há 18 anos e morar numa casa com 10 pessoas é bom. Nossa casa é confortável, de madeira, mas estamos construindo uma de alvenaria. No entanto, ao mesmo tempo é complicado, pois quando viemos para cá só tínhamos duas meninas e depois nasceram os outros seis, totalizando oito filhos. É muita gente, uma família bem numerosa. Somos exemplo de união, de força e respeito”, afirma Eliane.

A Covid-19 preocupa, claro, diz ela. “Eu protejo meus filhos e só deixo eles saírem quando é necessário, e quando chegam tomo banho e se limpam com álcool em gel”, conta a matriarca.

Um dos filhos dela é o estudante e lutador de jiu-jítsu Yan Lennon. Ele admite que morar numa casa com tantas pessoas é “um pouco desconfortável demais na minha opinião, mas ao mesmo tempo temos união familiar; sobre a pandemia eu me preocupo e uso máscaras”.

O pedreiro Wilberson Mafra, que é casado com uma das irmãs de Eliane Almeida, Júlia, mora na mesma rua que a cunhada e também reúne 11 familiares em sua residência.

Sem casos confirmados de Covid-19 em sua família, Wilberson defende que é preciso seguir as recomendações da OMS. 

"Moro com mais 10 pessoas, que são minha esposa, meus sete de nove filhos, genro e uma netinha”, explica ele, um comunicativo, religioso de igreja evangélica, que demonstra preocupação com o coronavírus.

Amazonas tem a maior proporção do País, mostra IBGE

O estudo realizado pelo IBGE trata do mapeamento preliminar dos aglomerados subnormais, feito como preparação para a operação do Censo Demográfico 2020, adiado para 2021 em razão da pandemia de Covid-19; e do mapeamento de unidades de saúde do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES).

Conceitualmente, de acordo com o IBGE, os aglomerados subnormais são formas de ocupação irregular de terrenos de propriedade alheia (públicos ou privados) para fins de habitação em áreas urbanas e, em geral, caracterizados por um padrão urbanístico irregular, carência de serviços públicos essenciais e localização em áreas que apresentam restrições à ocupação.

Nos aglomerados subnormais, residem, em geral, populações com condições socioeconômicas, de saneamento e de moradia mais precárias. Muitos possuem uma densidade de edificações extremamente.

“Na questão dos aglomerados, a situação do Amazonas e de Manaus não é das mais confortáveis, uma vez que o Estado possui a maior proporção de domicílios em aglomerados subnormais do País e Manaus é a segunda capital na mesma situação. Tudo isso é fruto de uma falta de planejamento nas nossas cidades e nas ocupações das moradias”, ressalta o disseminador de informações do IBGE no Amazonas, Adjalma Nogueira Jaques.

Para o gerente nacional da pesquisa, Maikon Novaes, o estudo traz como agravante que muitos aglomerados subnormais possuem uma densidade de edificações extremamente elevada, o que dificulta, neste momento, o isolamento social e que pode facilitar a disseminação da Covid-19. “O padrão urbanístico também pode consistir em um limitador no caso de necessidade de acesso de ambulâncias para casos de maior gravidade”, acrescenta o pesquisador.

Residências adensadas são 31,8%

Dados divulgados pelo IBGE no início do mês apontam que Amazonas, Amapá, Roraima, Pará, Acre e Maranhão são os estados que mais registram os chamados domicílios adensados, aqueles que têm mais de três moradores por dormitório.

Em todo o País, cerca de 18,4 milhões de pessoas vivem nesta situação, o equivalente a 9,7% da população. A maior quantidade está no Pará (1,6 milhões), Amazonas (1,1 milhão) e Maranhão (1 milhão).

Embora não tenha o maior número, o Amazonas tem a maior proporção de pessoas vivendo em domicílios adensados 1.109.427 de 3.483.987, ou 31,8%.

Parintins tem o maior percentual no Amazonas e o segundo no ranking dos municípios brasileiros: 36,1% dos habitantes. Na capital a proporção é menor, 24,7%.

Blog: Wilberson Mafra, pedreiro, pai de família

“Eu moro aqui com mais 10 pessoas, que são minha esposa, meus sete de nove filhos, genro e uma netinha. Ficamos preocupados com a turbulência que estamos vivendo, mas graças a Deus a doença não chegou aqui na nossa família. Temos fé, mas procuramos respeitar os decretos e recomendações, ter os devidos cuidados e não desrespeitando as orientações de médicos, autoridades, cientistas, nada devemos rejeitar. Para mim, a família representa o amor. É o amor de Deus e o melhor que Deus me deu na Terra. Nós, que somos pais, o melhor que temos é a família. Não é casa, conta bancária, nada. São o tesouro que Deus nos deu, o nosso alicerce. Por isso devemos cuidar dela”.

Repórter de A Crítica

Mais de Acritica.com

Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.