Terça-feira, 02 de Março de 2021
REALIDADE IGNORADA

Eles também perdem familiares: o drama dos profissionais de saúde na pandemia do AM

Na linha de frente do combate ao novo coronavírus, médicos, enfermeiros e demais trabalhadores da saúde veem sua saúde física e mental chegar ao ponto de exaustão para salvar vidas



1_BdFknPyBRZP8h71UtNJpEQ_F085BF6A-ECA3-4278-A6E0-1BD378F2D092.jpeg Foto: Reprodução/Manu Fernández
09/01/2021 às 07:38

Os profissionais de saúde que estão na linha de frente do combate do coronavírus também precisam de cuidados. Se antes da pandemia, situações como mulheres perdendo seus bebês durante o parto, mortes inesperadas de pacientes em plantões noturnos ou simplesmente a exaustiva carga de trabalho, já levavam esses profissionais à exaustão, com surgimento da Covid-19, o agravamento da situação nas unidades de saúde só elevou a situação para níveis ainda mais alarmantes no Amazonas.

Para uma enfermeira que atua em uma unidade hospitalar que atende diariamente pacientes infectados com o novo coronavírus, que preferiu não se identificar, tem se tornado cada vez mais doloroso e cansativo a rotina no hospital onde trabalha. Segundo ela, muitos profissionais vão precisar de tratamento psicológico após essa pandemia.



"Eu vejo colegas que trabalham desde o início da pandemia, que estão mentalmente exaustos. Para mim, especificamente, é um trauma: você faz de tudo para salvar, a equipe inteira faz a sua parte, mas o paciente não resiste. É doloroso de verdade, cada pessoa naquele leito é o amor de alguém, mãe de alguém, pai, uma tia ou avó querida, um filho. É muito difícil. Eu espero que possamos ter acesso à tratamento psicológico após toda essa situação, porque não está sendo e nem será fácil para todos os que estão envolvidos", contou a enfermeira.

A profissional de saúde destaca ainda que após o crescimento de internações no mês de dezembro, sua rotina tem ficando ainda mais intensa.

"Eu fui chamada para trabalhar na linha de frente em dezembro, acredito que, de certa forma, esse aumento de casos já era esperado devido as festas de fim de ano e a flexibilização que houve em relação ao isolamento social. Geralmente, entramos as 7h da manhã e teoricamente saímos as 19h. Tem dias que saímos um pouco mais tarde e quem tem tempo para comer alguma coisa é rei", destacou a amazonense.

Impacto da doença

O coronavírus, por ser altamente contagioso, obrigou os profissionais de saúde a adotarem certos equipamentos que visam reduzir a contaminação. Mesmo obedecendo todas os protocolos de saúde, a extrema prevenção não foi suficiente para que o enfermeiro do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), Lucas Filho, fosse contaminado pela Covid-19.

"Eu sou enfermeiro do Samu, porém com a primeira onda da Covid-19, trabalhei também no Hospital de Campanha do Estado, onde atuei na transferência de pacientes diagnosticados com coronavírus para a UTI. Infelizmente, acabei sendo infectado, e tive que ficar um período totalmente isolado dentro de casa, para que minha esposa e filha não pegassem também. Passado isso, voltei assim mesmo para o hospital. Trabalhei durante todo o período de funcionamento do hospital de campanha, era um trabalho cansativo, desesperador e ao mesmo tempo você tem aquela sensação de querer salvar vidas, que também tem familiares. Você sai do hospital com a sensação de dever cumprido", descreveu Lucas.


Lucas Filho vivencia desde o início da pandemia a luta diária para salvar vidas. Foto: Iago Albuquerque/Freelancer

Perdas

De acordo com o último boletim da Fundação de Vigilância em Saúde (FVS), foram confirmados 86 óbitos por Covid-19, elevando para 5.500 o total de mortes. Para a enfermeira que não quis se identificar, os números representam perdas irreparáveis.

"Acredito que todos nós tivemos perdas. Eu perdi um tio e um primo muito próximos a mim, é um choque e às vezes não parece real: Não pude me despedir e isso deve ter influenciado o meu processo de luto. Perdi também muitos colegas de trabalho. A gente lida da melhor forma, sempre confiando em Deus e esperando conforto nele", confessou a enfermeira.

O enfermeiro Lucas Filho relata ainda que desde o início da pandemia até os dias de hoje, é crescente o número de perdas entre os profissionais da saúde. Entretanto, o enfermeiro ressalta que isso o motiva a querer trabalhar ainda mais no combate a esta doença.

"É uma situação de terror, cenas em que antes nós víamos apenas em filmes que retratavam a pandemia. Nessa grande batalha perdemos amigos técnicos de enfermagem, enfermeiros, médicos, e ainda estamos perdendo. Tenho amigos de profissão que estão na UTI. E mesmo assim isso me dá a força para trabalhar, sabendo que ainda há muitas vidas que correm risco. Enquanto eu tiver forças, continuarei combatendo a covid-19", destacou Lucas.


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