Quarta-feira, 05 de Agosto de 2020
REPATRIAÇÃO

Brasileiros retidos em solo mexicano fazem apelo às autoridades por resgate

Ao menos 90 cidadãos do Brasil se encontram nesta situação devido à falta de voos causada pela pandemia do novo coronavírus



WhatsApp_Image_2020-07-03_at_21.01.56_C88F03FE-8C2F-4E34-8C4F-35EB6C59D7C2.jpeg Foto: Reprodução
04/07/2020 às 08:24

Com as medidas de segurança sanitária implantadas em vários lugares do mundo devido à pandemia do novo coronavírus, muitos brasileiros que estavam em outros países encontraram dificuldades em voltar para casa. Um deles foi o empresário amazonense Bruno Lima, que só conseguiu voltar do México após, segundo ele, “ter dado sorte” de não ter o seu voo cancelado. Em Manaus desde o mês passado, ele segue coordenando uma campanha para visibilizar o pedido de socorro dos brasileiros que continuam retidos no país latino.

A saga do empresário começou quando ele foi à Cidade do México a trabalho no dia 2 de março. Com o avanço da Covid-19 no mundo, Bruno decidiu voltar ao Brasil e ficar em isolamento social ao lado da família no Brasil. Resultado: mesmo pagando um “preço salgado” pelas passagens aéreas, seus dois primeiros voos foram cancelados e, pior, sem qualquer previsão de reembolso.



“Viajei com mais dois sócios e, em três semanas desde que chegamos, entramos em quarentena voluntariamente por estarmos em um país estrangeiro. Depois de uns dias, eu e um dos meus sócios decidimos seguir fazendo o nosso home office no Brasil, ao lado das nossas famílias, e começamos a procurar passagens de volta sem termos a certeza do embarque”, lembra.

“A história mais comum que ouvi é de pessoas que foram ao México trabalhar e acabaram sendo demitidas quando a pandemia começou. Sem renda, muitos pedem ajuda de familiares para comprarem passagens muito caras de voos que acabam sendo cancelados”, relatou o empresário, que após muitos dias de insistência conseguiu retornar ao Brasil no dia 3 de junho em um voo comercial com escala nos Estados Unidos. “Paguei R$ 1.950 na passagem”, diz.

Enquanto tentava comprar uma “passagem certa” no Aeroporto Internacional Benito Juárez, um dos mais movimentados da América Latina, Bruno Lima acabou descobrindo um grupo de WhatsApp composto por cerca de 150 brasileiros retidos no México e se sensibilizou com a situação de alguns que se encontravam sem condições de permanecerem mais dias no país – sem dinheiro nem para se alimentar e muitos com o visto de permanência no país expirando.

“Alguns brasileiros se desesperaram com a situação e tentaram entrar ilegalmente nos Estados Unidos. Muitos deles foram presos na fronteira e colocados em um abrigo localizado numa cidade fronteiriça, onde passaram a viver de forma escassa, à mercê de abusos e violência”, contou o empresário.

A fim de ampliar ainda mais o pedido de socorro dos brasileiros, o empresário amazonense usou as suas habilidades em marketing digital ao juntar relatos e fotos para criar uma campanha nas redes sociais com o objetivo de, segundo ele, solicitar mais um voo humanitário do governo brasileiro criando uma “massa crítica” (ou seja, quando há um grupo de pessoas na mesma situação de vulnerabilidade).

“Criamos uma página no Facebook chamada S.O.S Repatriação e uma conta no Instagram (@sos_repatriacao), e começamos a produzir conteúdo para chamar a atenção das pessoas e das autoridades do País para o problema dos brasileiros retidos no México”, contou Bruno Lima.

O vídeo publicado no Facebook intitulado “Brasileiros abandonados no México”, em que alguns deles pedem que o governo brasileiro realize mais um voo humanitário de repatriamento, tinha 3,2 mil visualizações até o fim dessa semana.

Até o fechamento desta reportagem, ainda havia um grupo de 90 brasileiros “presos” no México em meio ao impasse entre as autoridades mexicanas e brasileiras, e a empresa que opera voos para o País, vivendo uma rotina de dificuldades financeiras e vistos expirando.

Entre eles o engenheiro  William  Carinhanha, com a esposa e duas filhas. “A gente tá aqui na expectativa de (receber ajuda de) alguém do Brasil, porque do Consulado já não tem mais opção de ajuda, né? A gente tá aqui esperando alguma informação para ver se a gente consegue um vôo humanitário, para ver se a gente poder voltar para o Brasil”.

Vulneráveis

Até o fechamento desta reportagem, ainda havia um grupo de 90 brasileiros “presos” no México em meio ao impasse entre as autoridades mexicanas e brasileiras, e a empresa que opera voos para o País, vivendo uma rotina de dificuldades financeiras e vistos expirando.

Saída são voos humanitários

Até a noite de ontem, foram realizados dois voos humanitários, mas, segundo Lima, eles não  deram conta da demanda de brasileiros que estão vivendo em situação crítica no México.

“Há duas semanas, em um dos voos humanitários, pelo menos umas 60 pessoas foram resgatadas. As vagas que sobraram foram oferecidas aos brasileiros interessados em retornar ao preço de US$ 850 (cerca de R$ 4.552,60), valor acima do que muitos podem pagar. Para piorar, o voo cobre apenas um trecho, até Guarulhos, São Paulo. De lá, cada um tem que se virar para voltar às suas cidades”, contou.

O primeiro voo fretado contratado pelo governo brasileiro aconteceu no dia 21 de março, quando 935 brasileiros conseguiram voltar para o País. Nos dias 24 e 25 de abril foram repatriadas mais 159 pessoas que estavam retidos no México e no Panamá. A operação, realizada em conjunto com a Secretaria de Relações Exteriores do México, também permitiu que 91 mexicanos que se encontravam no Brasil retornassem aos seus respectivos países de origem.

O Itamaraty foi procurado pela equipe de A Crítica por e-mail para comentar se há planos para que o governo federal envie pelo menos mais um voo humanitário ao México para resgatar os brasileiros que ainda estão retidos no país, mas não respondeu até a publicação desta reportagem.

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Repórter do caderno Cidades do jornal A Crítica. Jornalista por formação acadêmica. Já foi revisor de texto de A Crítica por quatro anos e atuou como repórter em diversas assessorias de imprensa e publicações independentes. Também é licenciado em Letras (Língua e Literatura Portuguesa) pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

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