Terça-feira, 20 de Outubro de 2020
CRIME

Pastor é acusado de estuprar crianças e adolescentes dentro de igreja em Manaus

Além do templo, abusos aconteciam na casa do religioso, entre 2006 e 2017. Vítimas tinham idades entre 9 e 16 anos



WhatsApp_Image_2020-07-24_at_19.50.55__1__9ACA94CF-D26D-438D-91A2-A4717E513CB4.jpeg Foto: Isabelle Almeida
24/07/2020 às 21:06

Atenção: Esta reportagem contém relatos sensíveis. Recomendamos discrição ao leitor.

Os jovens W.P.M., de 21 anos, W.D., de 26, P.R., de 23, e D.S.B., de 29 anos, denunciaram, na tarde desta sexta-feira (24), o pastor Almir de Lima Evangelista, de 48 anos, da Igreja Aliança Evangélica, no bairro Santo Antônio, na Zona Oeste de Manaus. O homem é acusado de ter abusado sexualmente mais de quinze pessoas, inclusive crianças e adolescentes, entre os anos de 2006 e 2017. 



Uma das vítimas, um jovem de 21 anos, relatou como os abusos começaram.

"Tudo começou por volta de 2009, quando eu tinha praticamente feito 10 anos. Recebi permissão de ir aos cultos da igreja. Em determinado momento, fui chamado para ajudar a ornamentar a sala do culto das crianças e ele [Almir] estava lá. Todos começaram a ir embora e ele pediu pra ficar lá com ele [...]".

Segundo o jovem, de início não houve suspeita, já que o pastor era líder do grupo de crianças da congregação.

"Então ele me chamou quando ficamos sozinhos, apagou a luz da sala e me abraçou. Na hora eu fiquei sem reação e paralisei ali. Então, ele foi descendo a mão e começou a pegar no meu corpo e tentar me beijar, mesmo eu dizendo não". 

Ele conta que a partir daí os abusos ficaram cada vez mais frequentes e intensos, dando lugar a tentativas de penetração. Além da igreja, as investidas de Almir também aconteciam na casa do pastor.

"Quando eu comecei a entender eu já estava completamente envolvido e morria de medo de alguém descobrir e eu ser humilhado porque ali já havia começado a ter consciência de que aquilo não era certo. Meus pais perceberam que meu comportamento mudou, meu celular passou a ter senha por conta das mensagens que ele me enviava, tinha medo dos meus pais descobrirem e me culparem".

De acordo com o jovem, o pastor se dizia arrependido e orava pedindo perdão, mas os abusos não pararam.

"Logo depois, isso já nos meus 13 pra 14 anos, e depois de ter passado por inúmeros atos de abuso, descobriram o caso dele na igreja. O pai de uma criança pegou as mensagens que eram trocadas via SMS, na época, e começou a puxar assunto e confirmou que o filho dele estava sofrendo abuso por parte do Almir, e imediatamente, em uma terça-feira de culto, o pai foi na igreja e queria matá-lo, com razão, claro". 

Para o jovem, a denominação religiosa tentou esconder o caso, mas não se preocupou com as vítimas.

"A igreja imediatamente tentou abafar a situação por conta do grande nome que tem e, para manter sua reputação, expulsaram ele de lá. Eu só fui procurado pra confirmar os fatos depois de ter conversado com meus pais e falar sobre. Os pastores, que cuidaram da situação, apenas apuraram os fatos e, simplesmente, fui esquecido ali, sem sequer saberem se eu estava bem. Segui minha vida dali em diante, sempre me culpando sobre o ocorrido". 

Em seu desabafo, o jovem conta que desistiu de frequentar a igreja por não suportar a pressão de ver o pastor durante os cultos e atividades.

Outra vítima relatou que o pastor chegou a surpreendê-lo com um beijo e alegou que aquilo era um tipo de ‘ósculo santo', termo bíblico utilizado para cumprimentos com beijos e abraços.

"O meu caso ocorreu por volta do ano de 2010. Eu era da célula dele e sempre ia para a casa dele várias vezes na semana. O Almir tinha uma banca de churrasco na frente da casa deles, minha família sempre ia jantar ali, meus pais eram muito amigos deles".

Ele conta que ficava paralisado durante as primeiras ações do homem. "Eu sabia que aquilo não era nada santo, mas simplesmente não sabia como reagir e também não falei para ninguém". 

"Neste período eu tinha cerca de 13 anos, de fato, eu sabia o que era aquilo e como era errado. Mas contar para alguém estava fora de cogitação, não sabia como minha família reagiria, o que aconteceria com a igreja ou comigo mesmo. Ainda assim, eu não conseguiria inventar uma desculpa para do nada sair da igreja, sair da célula, fazer minha família para de jantar ali todo dia".

O jovem conta que mesmo depois que os abusos de Almir foram expostos, ele não teve coragem de denunciá-lo. Apenas ano passado a denúncia foi formalizada.

Outra vítima do líder religioso afirmou que, recentemente, conversou com o acusado através de uma rede social, e afirmou que recebeu imagens íntimas do suspeito.

"Isso prova que ele ainda continua praticando isso contra outras pessoas. Quando eu me identifiquei para ele, imediatamente me bloqueou", disse D.S.B.

As vítimas compareceram nesta sexta-feira na Delegacia Especializada em Proteção à Criança e ao Adolescente (Depca). Além delas, A Crítica entrou em contato com outros jovens, que disseram ter sofrido abusos na infância. Um deles afirmou que o homem chegava a ameaçá-lo.

"Eu me sentia muito culpado. Ele dizia que iria contar o que aconteceu [...], me colocava culpa pelo que aconteceu", relembrou o jovem.

A vítima, que hoje tem 29 anos, revelou que o religioso chegou a desmenti-lo, além de fazer ameaças.

"Meu caso começou no ano de 2006, quando eu tinha 16 anos. Eu, por curiosidade, aceitei visitar a igreja onde ele frenquentava e gostei realmente da igreja, mas, ao decorrer dos dias, a frequência para convites pra ir na casa dele era surreal. Foi quando tivemos o primeiro ato sexual".

O jovem conta que os abusos eram frequentes e, quando ele pediu que parasse, se tornaram ameaças.

"Ele dizia que, se eu não fosse dele, eu não seria de mais ninguém. E, se eu contasse para alguém ou para os pastores responsáveis, ele tornaria minha vida um inferno. Passei meses recebendo essas ameaças. Certo dia não aguentei mais".

Ele conta que chegou a chorar de medo com a pressão que sofria. "Foi quando eu falei com a pastora. [...] Eu contei tudo o que eu estava passando. Ela, 'de cara', não queria acreditar. Marcou uma reunião no dia seguinte, onde estávamos eu, ele, a pastora e o pastor. Contei tudo novamente e ele negou tudo. Eu comecei a chorar novamente. Ele disse que também poderia chorar da mesma forma".

Os jovens acrescentaram que sofreram depressão por conta dos abusos e tiveram que passar por tratamento psicológico. A Depca solicitou exame de coito anal [confirmação de penetração] nas vítimas, que foram encaminhadas ao Instituto Médico Legal (IML).

Uma pastora, representante da Igreja Aliança Evangélica, disse à reportagem que o pastor não faz mais parte da congregação e que a instituição vai emitir uma nota sobre o caso.

News fe58c969 f689 427d bdc3 fb9389c2f509 adee0aa5 fa35 42f7 850c 32125f8d473c
Repórter de A Crítica

Mais de Acritica.com

Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.