Quarta-feira, 05 de Agosto de 2020
VULNERABILIDADE

Líderes yanomami reclamam de risco de coronavírus após visita de militares

PGR está investigando a visita por ela ter ignorado o desejo de comunidades de permanecerem isoladas da sociedade, violado as regras de distanciamento social e distribuído cloroquina aos indígenas



download__29__6BB5788A-348F-46F9-A94D-6737435C39E7.jpg Foto: Adriano Machado/Reuters
03/07/2020 às 15:31

Líderes de uma comunidade indígena yanomami isolada reclamaram que uma missão de militares para entregar equipamento de proteção e suprimentos para o combate ao coronavírus aumentou o risco de infecções em seu povo por causa do contato com forasteiros, inclusive jornalistas.

Procuradores federais disseram que estão investigando a visita por ela ter ignorado o desejo de comunidades yanomami de permanecerem isoladas da sociedade, violado as regras de distanciamento social e distribuído cloroquina aos indígenas.



Na terça e quarta-feiras, soldados levaram suprimentos médicos de helicóptero a postos avançados na fronteira com a Venezuela e reuniram famílias yanomami para fazer exames de detecção do novo coronavírus, uma iniciativa registrada por um contingente de jornalistas.

“Ficamos surpresos com a visita do governo. Não queremos ser propaganda do governo”, disse Parana Yanomami, uma das lideranças do povo yanomami, em um vídeo.

Os yanomami são o último grande povo indígena vivendo em isolamento relativo em uma vasta reserva, e há décadas suas terras são invadidas por garimpeiros que levam doenças fatais para a população.

Roberto Yanomami, chefe de uma comunidade de Surucucu, disse que o governo organizou a viagem sem consultar os líderes indígenas.

“Fui muito surpreendido com essa visita, não fomos consultados. Por isso estou com muita raiva dos senhores, pois erraram, chamaram os yanomami sem explicar e colocaram dentro do quartel”, disse ele também em uma mensagem de vídeo, com o rosto pintado de negro com tinta de jenipapo.

“Vocês fizeram aglomerações com pessoas estranhas que vieram de fora. Eu não aceito que venham sem consultar o povo, não façam mais isso. Eu sou liderança daqui, quem manda na região sou eu... Não aceito estarem aqui tirando fotos de nossas crianças e mulheres yanomami.”

Liderando a missão de quarta-feira, o ministro da Defesa, Fernando Azevedo, disse aos repórteres que a pandemia está sob controle entre os yanomami, já que os médicos não detectaram nenhum caso de Covid-19 entre os índios.

Seu comentário foi rejeitado pelo Conselho Distrital de Saúde Indígena (Condisi) yanomami, que diz que já houve mais de 160 casos confirmados e cinco mortes entre o povo de mais de 27 mil habitantes.

Em um comunicado enviado à Reuters, o Ministério da Defesa disse que todos os membros da missão foram devidamente examinados para detecção de Covid-19 de antemão e que a cloroquina é usada há mais de 70 anos contra malária, prevalente na região amazônica.

O conselho pediu que o procurador público investigue a visita e o envio de cloroquina, remédio antimalária cujo uso no tratamento de pacientes de Covid-19 não tem eficácia comprovada.

A Procuradoria Pública disse que os militares não estão protegendo os yanomami de seu principal risco de contágio —os garimpeiros em suas terras, estimados em mais de 20 mil.


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