Quarta-feira, 21 de Outubro de 2020
Novo Coronavírus

Cura por meio de produtos naturais da Amazônia pode estar perto, aponta artigo

Pesquisa da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) revela resultados promissores sobre uso de produtos naturais da floresta para resolver doenças como a Covid-19



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12/07/2020 às 06:49

E se um produto natural da Amazônia fosse capaz de produzir um medicamento eficaz contra a Covid-19? Essa inquietação impulsionou os cientistas Larissa Wiedemann, Valdir Florêncio da Veiga Jr e Ananda Antonio, do Programa de Pós-graduação em Química da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), a pesquisarem, por meio de programas de computador, o uso de produtos naturais da região contra a doença. Os primeiros resultados divulgados na revista científica Royal Society of Chemistry Advances foram promissores.

No artigo publicado na edição de junho da revista, intitulado “Natural Products Role Against Covid-19” (ou “O papel dos produtos naturais contra a Covid-19” em tradução livre), os pesquisadores avaliaram a possibilidade de empregar produtos naturais oriundos da região amazônica no desenvolvimento de um medicamento capaz de combater o novo coronavírus.



A pesquisa foi feita por meio de modelagem computacional – uma técnica que usa programas de computador para simular soluções de problemas reais e complexos. Dessa forma, os cientistas observaram que alguns compostos naturais foram capazes de inibir a transmissão e a replicação (multiplicação) do vírus da Covid-19.

“Esses compostos pertencem às classes de substâncias que incluem flavanonas, flavonois, alcaloides, ácidos graxos, terpenoides e esteroides. Entre eles, os flavonoides apresentaram os resultados mais promissores para os estudos contra a Covid-19. Substâncias dessa classe química estão presentes na flora amazônica, que pode servir de fonte para o desenvolvimento de tratamentos ou medicamentos preventivos”, explicou a pesquisadora Larissa Wiedemann, uma das autoras do artigo.

Cautela

Os nomes das substâncias citadas pela cientista podem causar estranheza, mas são encontradas em plantas bem conhecidas. Inclusive, os pesquisadores optaram por não divulgar quais foram as utilizadas para a extração das substâncias estudadas, até mesmo para evitar que as pessoas corram atrás de determinada planta para se proteger do coronavírus sem a devida comprovação científica – como aconteceu recentemente com alguns medicamentos rotulados equivocadamente como “milagrosos”.

“Evitamos falar sobre as espécies nesse momento inicial justamente para evitar que as pessoas corram atrás de plantas medicinais, porque ainda não temos a comprovação de que a quantidade de substância encontrada em uma folha, por exemplo, terá efeito contra a doença”, disse a pesquisadora Ananda Antonio, que é doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Química da Ufam.

Método de reposicionamento

Os cientistas da Ufam estudaram as substâncias naturais a partir de informações já comprovadas em casos parecidos com a Covid-19. Como explicou o pesquisador Valdir Florêncio, do Departamento de Química, um método comum durante uma pesquisa sobre remédios para combater uma doença nova é o do “reposicionamento”.

“É, basicamente, aproveitar uma substância que tem atividade biológica para outra doença e que já está no mercado – ou seja, já passou por diversos testes de segurança. Assim, buscamos estudos mais amplos sobre substâncias naturais que já estão no mercado e se mostraram eficazes em outros vírus da mesma família que provoca a Covid-19”, esclareceu.

Apesar dos resultados iniciais animadores, os pesquisadores afirmaram que ainda é cedo para qualquer “conclusão definitiva” sobre o medicamento certo que previna ou combata a covid-19, embora haja um certo otimismo de que os produtos naturais podem responder a esse dilema, pois geralmente eles apresentam baixa toxicidade e, por sua bioatividade, são bastante utilizados na indústria farmacêutica, inclusive na produção de antivirais.

“É importante que a população seja informada que, durante o desenvolvimento de um novo medicamento, muitas substâncias podem apresentar um resultado satisfatório nos ensaios preliminares (em uma pequena placa de vidro ou no computador), mas quando testadas em seres humanos não se mostram tão eficientes e ainda podem provocar outras doenças ou até mesmo o agravamento do quadro do paciente, por isso são descartadas em seguida”, observou Larissa Wiedemann, outra pesquisadora do Departamento de Química da Ufam.

Fase de produção de medicamentos

Os pesquisadores adiantaram que na próxima etapa da pesquisa será verificada a viabilidade de produção de medicamentos a partir dos produtos naturais que foram testados virtualmente, e, na etapa seguinte, após observar a eficiência deles em laboratório, será possível realizar testes com pessoas.

“Análises computacionais podem indicar que uma determinada substância pode combater aquela doença, mas, quando a mesma é testada em laboratório, é comum que nem sempre ela apresente um desempenho satisfatório ou é preciso uma concentração muito grande dela para termos o efeito desejado. Todos esses pontos devem ser avaliados antes de passarmos para estudos com seres humanos”, destacou Ananda Antonio.

“Estamos trabalhando no desenvolvimento de metodologias que permitam produzir, em larga escala, algumas dessas substâncias que se mostraram eficientes nos ensaios preliminares, para assim, caso a eficácia seja comprovada, assegurar uma cadeia de fornecimento para abastecer farmácias e hospitais”, completou a pesquisadora Larissa Wiedemann.

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Repórter do caderno Cidades do jornal A Crítica. Jornalista por formação acadêmica. Já foi revisor de texto de A Crítica por quatro anos e atuou como repórter em diversas assessorias de imprensa e publicações independentes. Também é licenciado em Letras (Língua e Literatura Portuguesa) pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

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