Sexta-feira, 27 de Novembro de 2020
LITERATURA

Miltom Hatoum relança crônicas para ajudar povos indígenas

Escritor cedeu os direitos autorais de alguns dos textos da obra “Um solitário à espreita”, publicada em 2013 para a “Páginas Editora", que publicou o livreto “Sete Crônicas de Milton Hatoum”



milton-hatoum-bruno-santos_D541C5C0-A40B-44AD-97BD-49EFAB3A6C37.jpg Foto: Divulgação
16/07/2020 às 19:20

Isolado, mas não inerte. É essa a postura do escritor amazonense Milton Hatoum durante este período de pandemia do novo coronavírus. Em meio ao confinamento, o autor da famosa obra “Dois Irmãos” decidiu fazer o possível dentro de suas limitações: uma edição solidária com crônicas de sua autoria para auxiliar os povos indígenas e incentivar as pequenas livrarias.

O escritor cedeu os direitos autorais de alguns dos textos da obra Um solitário à espreita, publicada em 2013 pela Companhia das Letras, para a Páginas Editora – empresa mineira de pequeno porte criada pela jornalista e escritora Leida Reis. A seleção compõe o livreto Sete Crônicas de Milton Hatoum, lançado no último dia 7 de julho.



Além de estimular os trabalhos da empresa, que adiou sua programação de lançamentos devido a pandemia, a obra tem a proposta de assistir organizações não governamentais (ONGs) que defendem os povos originários, duramente ameaçados pela Covid-19.

Do lucro de Sete Crônicas de Milton Hatoum, 50% será distribuído entre as entidades Centro de Medicina Indígena Bahserikowi, Amism Sateré Maw, Parque das Tribos e Operação Amazônia Nativa.

“Não é um valor grande, mas acredito que qualquer valor já ajuda nesse momento em que os indígenas estão ameaçados”, afirma Hatoum.

De acordo com o escritor, a idealização da obra surgiu a convite da própria editora há mais ou menos dois meses. À época, o pedido era para que o autor elaborasse um texto novo, nunca antes publicado.

“Mas eu não tenho condições de escrever algo inédito agora, porque estou totalmente voltado a terminar o terceiro volume da trilogia O lugar mais sombrio. Então eu sugeri a publicação dessas crônicas e sem pagamento de direitos autorais, que, nesse momento, pra mim, é secundário”, asseverou.

Segundo Hatoum, as crônicas se referem a recortes de sua memória, sendo parte ambientada em Manaus e outra em São Paulo (SP), cidade em que o escritor reside atualmente.

“Dentre os textos, é possível encontrar 'História de dois encontros', que trata sobre racismo; 'Um enterro e outros carnavais', em que Manaus aparece como uma cidade devastada, tendo o cemitério como único lugar viável; 'Domingo sem cachorro', que conta a história de um mendigo; e 'A borboleta louca', que, como o próprio nome já diz, reflete sobre a loucura", conta.

Reflexos da Pandemia

Com residência na capital mais afetada pela Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, Milton Hatoum e a família decidiram optar pela reclusão, com saídas somente quando necessário e com todos os cuidados possíveis.

Embora acostumado a trabalhar isolado para se dedicar às obras, o escritor pontua que o distanciamento social decorrente da pandemia criou um ritmo muito fragmentado em sua escrita.

“Eu não tenho mais horário para escrever como tinha antes, por exemplo. Eu escrevo quando posso”, comentou, deixando claro que as condições de muitos trabalhadores são ainda piores, principalmente daqueles que precisaram continuar saindo de casa durante este período desafiador, como profissionais de saúde e motoboys.

Apesar de sua dedicação a terceira parte da trilogia O Lugar mais sombrio, Hatoum revela que chegou a atrasar a finalização do manuscrito. Diante desses reflexos e do fechamento temporário do comércio, incluindo livrarias, o cronograma de lançamento da obra – anteriormente previsto para este ano – foi alterado.

“Iria ser publicado este ano, mas as livrarias ainda estão fechadas ou abrem com muitas restrições. Eu mesmo atrasei um pouco a finalização do manuscrito. De modo que o lançamento ficou para o ano que vem”, revelou.

Saiba mais

Milton Hatoum detalha que, apesar dos textos não serem inéditos, a obra traz encantos em sua edição, como o prefácio e posfácio dos professores Roniere Menezes e Aídes José Gremião Neto, respectivamente.

No primeiro caso, o Doutor em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) ressalta, inclusive, que o autor apresenta clara consciência da efemeridade das reviravoltas do mundo.

Já no posfácio, o Mestre em estudos literários pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) destaca a postura empática e o senso de responsabilidade social de Milton Hatoum.  

Destaque

A edição solidária de Sete Crônicas de Milton Hatoum já está à venda no portal eletrônico da Páginas Editora. Em breve, a obra com textos selecionados pelo escritor amazonense também será comercializado em espaço físico em Manaus, na Banca do Largo, do livreiro Joaquim Melo, localizada na Rua José Clemente, 573, Centro. 

Repórter

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