Terça-feira, 27 de Outubro de 2020
ENTREVISTA

‘Vi uma clara omissão da prefeitura na pandemia’, diz Rotta

Vice-prefeito critica abertura de valas coletivas, diz que Arthur deve explicações sobre tratamento em São Paulo e dá detalhes dos bastidores do rompimento em 2016



rotta_entrevista_65F1FE13-2402-4351-B63C-785D653F4204.jpg Foto: Jair Araújo
29/08/2020 às 13:59

Para o vice-prefeito de Manaus, Marcos Rotta (DEM), a grande diferença de sua pré-campanha nesta eleição, comparada com a de 2016, é ter sido lançada pelo presidente nacional do partido. Hoje ele está no Democratas, comandado por ACM Neto. Em setembro de 2019, Neto  afirmou que o DEM dará todo o suporte necessário para que Rotta dispute o cargo majoritário em Manaus.

Em entrevista ao A CRÍTICA, Rotta afirmou estar muito mais motivado na corrida eleitoral deste ano. E pode ser a chance do político superar o trauma das últimas eleições: em 2016, ele era o nome oficial do MDB. Porém um acordo de última hora feito do presidente estadual do partido, senador Eduardo Braga, colocou Rotta como vice de Artur Neto (PSDB). Eles foram eleitos com 581,7 mil votos, mas a lua de mel durou pouco. Em 2018, Rotta rompeu com o prefeito por ter sido preterido na chapa que lhe fora oferecida para o governo do estado. Ao ingressar no DEM, comparou a filiação a uma carta de alforria.



Na entrevista, o vice-prefeito comentou sobre as “pernadas”, o rompimento com o Arthur, a gestão da prefeitura no combate a pandemia do novo coronavírus e a disseminação de fakenews. Confira os principais trechos:

Quais os erros e acertos do seu mandato?

Avalio o meu mandato apenas nos dois primeiros anos, quando estabeleci uma relação muito próxima e fui uma espécie de secretário particular do prefeito. Depois tivemos um episódio em que me afastei dele porque me entristeci muito. Quando ele me tirou da Seminf para que eu fosse o candidato dele ao governo em 2018. Não fui e depois descobri que ele me usou. Ameaçou lançar minha candidatura para que pudesse emplacar o filho como vice em alguma chapa. O principal motivo foi esse.

E estão brigados desde então?

Depois até tentamos uma reaproximação, mas corpos estranhos à administração fizeram com que a gente permaneça distante. O que eu acho muito triste porque, em 2016, ele me tratava muito bem. Elogiava bastante e dizia que eu não ia ser um vice decorativo. Ele me tirou várias oportunidades, mas não me tira mais uma coisa que faltava: a experiência administrativa no executivo.

Esse rompimento com o prefeito comprometeu o que o senhor prometeu ao eleitor e não conseguiu fazer?

Quando fui convidado para ser vice-prefeito do Arthur, eu sabia do histórico dele. Tracei na minha cabeça uma linha paralela e dela não me afastei. Procurei seguir fielmente aquela linha porque sabia que ele tinha problemas históricos com os vices. Não contribui e não fiz nenhuma ação que pudesse colaborar para qualquer tipo de distanciamento. Recebi várias missões do prefeito ao longo desses dois primeiros anos e cumpri todas com muita determinação. Então, sim, acho que eu podia ter feita mais nos anos seguintes.

Até que ponto, na sua avaliação, tem machismo nas suas declarações em relação à primeira-dama, Elisabeth Valeiko?

Desde que iniciei minha vida pública, as vagas em meu gabinete são ocupadas por mulheres. A mulher é muito mais sensível, maleável, inteligente e capaz que o homem. Não tenho nenhum problema em relação à mulher, machismo. O que tenho é em relação a corpos estranhos dentro da administração pública.

Corpo estranho o senhor se refere à primeira-dama do município?

Sim. Ela não foi eleita para mandar na prefeitura, delegar secretários e subsecretários ou servidores municipais. Ela faz isso hoje. Se você pegar as placas de inauguração das obras da prefeitura não tem o meu nome, mas tem o dela. Tem alguma coisa errada. Ela não disputou eleição, não foi para o sol e chuva, não fez reuniões, não se encontrou com as pessoas e não ouviu segmentos da sociedade. Ela está ocupando um posto que a ela foi delegado.

O que pensa sobre o silêncio da Câmara Municipal de Manaus em relação aos problemas da cidade?

É um julgamento que cabe a cada vereador, deputado estadual, federal e senador. Via de regra, há uma dependência muito grande do parlamento com relação ao executivo. Nunca tive esse tipo de problema, sempre votei de forma independente. Fui 16 anos deputado estadual e nunca tive um cargo no governo. Essa independência eu consegui construir, mas tem colegas que não conseguem. São atrelados a prefeito, a comunidades. Hoje, há uma vigilância muito maior em cima do comportamento do parlamentar e a população (na hora de votar) faz um juízo de valor muito mais aprofundado e consistente com a grande gama de informações disponíveis.

O prefeito Arthur Neto propagandeou a eficiência do hospital de campanha, mas ao ser infectado pela Covid-19 foi se tratar no Sírio Libanês, como o senhor avalia isso?

Foi um fato extremamente negativo essa viagem do prefeito para se tratar em São Paulo quando ele próprio defendia o hospital de campanha e não o utilizou. Essa situação não ficou esclarecida não só para mim, mas para toda a sociedade. Ele preferiu omitir, os motivos e as necessidade de sair de Manaus, mesmo diante de uma pressão muito grande.

Como o senhor avalia a gestão da pandemia por parte do prefeito Arthur Neto?

O prefeito se esquivou. Quando ele gravou um vídeo conclamando o governador para juntos enfrentar a pandemia foi a senha para que ele pudesse sair de cena. Tanto que depois ele sumiu e ninguém mais teve notícia do prefeito. O Wilson (Lima) assumiu a responsabilidade sozinho e fez o trabalho que precisava ser feito. Vi uma clara omissão da prefeitura em relação ao compartilhamento das ações.

O que o senhor faria diferente?

Primeiro que não daria R$ 17 milhões para cuidar da imagem do prefeito. Destinaria para fomento aos ambulantes, costureiras e aos micro e pequenos empresários. Muitas pessoas ficaram entregues à própria sorte. Faltou vontade política e coragem para enfrentar a pandemia. Se não fossem as ações do governo federal não sei como estariam essas pessoas.

O prefeito de Manaus recebeu críticas até do presidente Jair Bolsonaro por ter aberto valas comuns para enterrar mortos pela covid-19. Na sua avaliação foi uma decisão acertada?

Não. Essa talvez seja a maior mancha política da vida do prefeito. Aquilo ninguém vai apagar da memória, foi um momento de dor, sofrimento e um ato extremamente desumano. Expôs a cidade de uma forma extremamente negativa e desumana. Foi um erro primário da administração e não combina com um poder público que se diz humano e próximo das pessoas.

O prefeito anunciou cortes e medidas de contingenciamento até o final do mandato. O que mais teria feito?

Procurei dentro do meu humilde orçamento reduzir ainda mais porque também tenho a obrigação de dar a minha parcela de contribuição. A prefeitura poderia cortar muito mais os investimentos, sobretudo, no repasse da prefeitura ao sistema de transporte público que continua de forma desenfreada. É inadmissível que a prefeitura continue pagando milhões de reais todos os anos para um sistema velho  e que não atende as necessidades de uma cidade do porte de Manaus. A próxima administração tem que ter profundo conhecimento da gestão pública, dos problemas de Manaus e dos que serão herdados.

Por exemplo?

Transporte público, iluminação pública, lixeira pública e radares sem funcionamento. A prefeitura não suportaria alguém sem experiência administrativa. Falo isso não com desprezo a quem não tem, mas por conhecimento de causa. Sei do tamanho da prefeitura, dos seus problemas e seus desafios. É preciso ter muito conhecimento, experiência e bom senso para superar os obstáculos que serão herdados pelo prefeito.

O que lhe credencia ao cargo de prefeito?

Minha experiência. Estou muito tranquilo em relação ao processo eleitoral. Não perco sono para disputar eleição e não vai ser agora. Estou muito motivado mais que em 2016. Estou mais maduro, consciente, preparado e, acima de tudo, mais conhecedor da realidade da cidade. A experiência que tive na Seminf foi muito importante e depois na Secretaria de Estado de Região Metropolitana. O cargo de vice-prefeito me abriu muitas portas do conhecimento para que pudesse ter um raio-x fiel do que é a prefeitura.

No caso de composição para a eleição, o que levaria a escolher um vice?

Estamos com dificuldade de escolher vice. Só tem candidato a prefeito. Até o deadline final vai ser muito complicado fazer composição. A história das eleições de Manaus mostra claramente isso e sou testemunha ocular. Era pré-candidato a prefeito em 2016 e meu partido fez uma composição e me deram a opção de não ser candidato ou disputar como vice. Estamos conversando com todas as correntes e candidatos que manifestam interesse. Estamos extremamente abertos ao diálogo.

O que tem de diferente de 2016 para 2020?

Para a eleição de agora, fui lançado pré-candidato pelo presidente nacional do partido, o prefeito de Salvador, ACM Neto, com quem tenho uma relação muito próxima e fraterna. Temos procurado receber o material dele, projetos, programas e ações para que possamos estudá-los e adaptar à Manaus. São duas cidades diferentes, mas com orçamento muito parecido. A gente se pergunta se Salvador consegue fazer uma administração que salta os olhos por que não podemos fazer em Manaus?

Em eventual aliança, o senhor viria como vice na chapa do ex-governador Amazonino Mendes?

Não sei. Não tenho conversado com o Amazonino. Mas a gente não pode descartar o capital político do ex-governador, como também não podemos descartar o do ex-governador David (Almeida). Hoje a eleição está polarizada e precisamos trabalhar para reverter. Neste pleito não será igual a 2016, onde me chegaram com uma notícia e uma proposta. Dessa vez vou sentar juntamente com o Pauderney e vamos estudar e analisar todos os cenários.

Qual arco partidário que interessa ao senhor, ao seu grupo ou à sua candidatura?

Estamos procurando conversar com todos os pré-candidatos e criar um clima de harmonia na eleição. Essas pré-candidaturas e conversas iniciais servem muito para que isso ocorra e torço verdadeiramente para que tenhamos uma campanha limpa, de propostas, debates e embates em alto nível. Ninguém aguenta mais essa política rasteira, velha, de derrubar alguém para poder subir.

Isso lhe preocupa?

Tenho muita preocupação quanto às fakenews. Em 2016 fui vítima e sei o que isso provoca numa pessoa. Já percebo que existe nos bastidores uma grande movimentação neste sentido, o que é muito triste porque talvez alguns grupos e pessoas não compreenderam que a gente vive um momento novo na política em que as pessoas condenam veemente esse baixo nível das eleições.

O que ainda precisa avançar no combate a desinformação?

Tudo gira em torno do bom senso e da consciência das pessoas. De um lado o eleitor que recebe uma mensagem e repassa até de forma inocente e do outro existem grupos que contratam robôs, o que está mais do que comprovado, que disparam milhares de mensagens. Essas pessoas precisam ser identificadas e punidas. Endurecer as regras e as penas. O Congresso está tentando votar o projeto das fakenews. Acho que tem alguns exageros, mas alguma regra precisa ser criada no país.

News larissa 123 1d992ea1 3253 4ef8 b843 c32f62573432
Repórter de A Crítica

Mais de Acritica.com

Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.