Sexta-feira, 07 de Agosto de 2020
NOVO TRATAMENTO

Modelo injetável de medicamento contra a HIV/Aids anima pesquisadores

Resultados preliminares do modelo injetável com a PrEP já demonstraram vantagens em relação ao modelo de comprimidos. Novidade pode causar uma revolução na prevenção e controle da doença



destaque_prep_injetavel_466095CD-D48F-4019-ADBF-FBD538CC3A7E.jpg Foto: Reprodução/Internet
09/06/2020 às 16:29

O estudo com a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) injetável está em andamento, mas os resultados prévios divulgados neste mês já fizeram o mundo vislumbrar uma nova revolução na prevenção do HIV/Aids e no tão sonhado controle da epidemia da infecção sexualmente transmissível que, no Amazonas, infectou 1.629 adultos em 2019, segundo levantamento da Secretaria de Estado da Saúde (Susam).

Em 2018, o número de casos de HIV em adultos registrados foi de 1.860. Comparando com os dados do ano passado houve uma queda de 12,4%. Jovens na faixa etária de 20 a 24 anos foram os mais atingidos nos dois últimos anos, sendo 422 em 2018 e 407 em 2019.



A expectativa é que a PrEP injetável proteja de forma eficiente os grupos mais vulneráveis ao vírus – em especial, profissionais do sexo, jovens gays, mulheres transsexuais e homens que fazem sexo com homens. Para isso, a dose deve ser tomada de dois em dois meses para assegurar a imunidade ao contágio do HIV em caso de relações sexuais sem preservativos.

Isso não significa que os comprimidos da PrEP, já testados e ofertados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) desde 2017, estão com os dias contatos, principalmente porque o estudo clínico com o medicamento injetável ainda não foi concluído. Tudo indica que as pílulas seguirão sendo um dos métodos de prevenção ofertados, ao lado da camisinha e da Profilática Pós-Exposição ao HIV (PEP, na sigla em inglês), uma espécie de “pílula do dia seguinte” usada em pessoas que acidentalmente (ou por descuido) se expuseram ao HIV.


Método de comprimidos não deve ser descartado. Foto: Reprodução

Mesmo assim, as vantagens entre um tratamento e o outro já estão sendo evidenciadas. Até porque um dos ingredientes para o sucesso da PrEP oral é a disciplina do usuário em tomar os comprimidos todos os dias, sem interrupção, para assegurar que os seus princípios ativos estejam no corpo sempre em níveis adequados.

É comum que os usuários mais jovens “relaxem” com o passar do tempo e acabem esquecendo de tomar a pílula um dia ou tomem em dias alternados, o que aumenta a possibilidade da infecção. Por isso, uma PrEP de longa duração passou a ser o objetivo de diferentes pesquisas nos últimos quatro anos.

Um deles, batizado como HPTN 083 e pertencente à Rede de Ensaios de Prevenção do HIV (HPTN, na sigla em inglês), desde 2016 testou injeção intramuscular em aproximadamente 4.500 participantes negativos para HIV no Brasil e em mais seis países. Na prática, a substância cria um “escudo” no organismo, liberado gradualmente ao longo de dois meses, quando a dose precisa ser renovada.

O estudo foi o primeiro ensaio clínico em larga escala a investigar um medicamento injetável chamado anti-HIV cabotegravir, de ação preventiva prolongada. Sobre se uma dose a cada 8 semanas é segura e tão eficaz para prevenir o HIV quanto a medicação oral, os resultados prévios foram animadores. O estudo seguirá acompanhando os participantes para consolidar alguns dados sobre o uso da medicação.

Apesar do otimismo provocado pelos primeiros resultados, ainda é cedo para saber quando a PrEP injetável estará disponível para o público em geral, pois o processo de aprovação regulatória exige várias etapas, uma delas é a revisão e aprovação pela Food and Drug Administration (FDA), órgão dos Estados Unidos que regula os medicamentos, e outras agências reguladoras.


Vírus da Aids em modelo 3D. Arte: Visual Science

Enquanto isso, o sistema público de saúde do Amazonas, em especial na Fundação Tropical, zona Centro-Oeste de Manaus, segue disponibilizando gratuitamente os comprimidos da PreP – que é a combinação de dois antirretrovirais (tenofovir e emtricitabina) em um único medicamento, o Truvada.

A fim de alcançar mais pessoas vulneráveis ao HIV/Aids, um novo centro pode ser implantado ainda esse ano na Policlínica Raimundo Franco de Sá, no Nova Esperança, zona Oeste da capital amazonense.

Sobre a PrEP no AM

Desde que chegou no Amazonas, em 2017, o medicamento tem demonstrado ser uma das melhores formas de prevenção ao HIV/Aids. Ano passado, de acordo com a Susam, dos 938 pacientes cadastrados no tratamento oral da PrEP na Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD), 853 seguem em acompanhamento regular.

Para a pesquisadora Aline Alencar, da FMT-HVD, o desafio atual é ter um amplo arsenal de métodos preventivos disponíveis à população para conter a pandemia do HIV/Aids.

“Para o tamanho de Manaus, o número de oferta da Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) oral é pequeno. A lista de espera é imensa. Precisamos ampliar o número de centros que ofereçam o tratamento e capacitar mais médicos e enfermeiros. O ideal é que cada região da cidade tenha um, com horário ampliado até à noite, para que possamos alcançar o maior número de pessoas vulneráveis, como as mulheres transsexuais”, disse ela, acrescentando que a ampliação do tratamento oral não seria um empecilho para trazer o medicamento injetável ao Estado quando o mesmo estiver regularizado.

“O índice de proteção contra a infecção do HIV oferecido pela PrEP oral é altíssimo, principalmente para aquelas pessoas que, por algum motivo, não gostam de usar a camisinha nas relações sexuais, porém, preconizamos o uso regular do medicamento”, explicou.

Interessados

As pessoas interessadas em aderir à Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) oral devem procurar o centro no Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD), no bairro Dom Pedro, para agendar uma consulta de segunda a quinta-feira, das 8h às 12h, na Gerência de ambulatório da fundação. É preciso levar o Cartão do SUS e um comprovante de residência.

No dia da consulta, o usuário fará um teste rápido de infecções sexualmente transmissíveis e receberá o acompanhamento de um psicólogo e um enfermeiro para tirar todas as dúvidas sobre a PrEP. Após o resultado negativo, o médico prescreve o medicamento. A partir de então, a cada 90 dias, o usuário retorna ao centro para fazer um novo teste rápido e buscar mais comprimidos.

É necessário que a pessoa não seja portadora do vírus HIV e atenda alguns critérios estabelecidos pelo Ministério da Saúde, tais como pertencer a grupos específicos: profissionais do sexo, homens que mantêm relações sexuais com outros homens, transexuais e casais sorodiscordantes, ou seja, quando um dos parceiros possui o vírus e o outro não.

É bom lembrar que o medicamento não protege o usuário contra outras infecções transmitidas sexualmente, como sífilis, gonorreia, HPV, entre outras, mas garante prevenção de até 98% dos casos de HIV, se utilizados da forma correta.

Prep

Em dezembro de 2010 foi publicado na prestigiada revista científica “New England Journal of Medicine” o iPrEX, o primeiro estudo que demonstrou que o uso contínuo de comprimidos com antirretrovirais por pessoas negativas para HIV era capaz de protegê-las de forma muito potente dessa infecção. Era o início da Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) contra o HIV. Devido ao custo-benefício, o Brasil passou a oferecer a PrEP no Sistema Único de Saúde (SUS) em 2017.

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Repórter do caderno Cidades do jornal A Crítica. Jornalista por formação acadêmica. Já foi revisor de texto de A Crítica por quatro anos e atuou como repórter em diversas assessorias de imprensa e publicações independentes. Também é licenciado em Letras (Língua e Literatura Portuguesa) pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

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