Segunda-feira, 25 de Maio de 2020
RISCO ASSUMIDO

Mesmo sem comprovação de eficácia, Ministério da Saúde estende uso da cloroquina

Apesar de estender o uso do medicamento para casos leves da Covid-19, o próprio MS reconhece que não há evidências de eficácias e cita possíveis efeitos colaterais como disfunção cardíaca e do fígado, além de alterações visuais



1744987_223C842B-0053-4733-8CBF-66B7D6C30E00.jpg Foto: Divulgação
21/05/2020 às 14:37

O Ministério da Saúde (MS) divulgou, ontem, um documento que estende a possibilidade de uso da cloroquina e da hidroxicloroquina em pacientes com sintomas leves do novo coronavírus. No entanto, o próprio documento reconhece que não há evidências suficientes de eficácia das substâncias no tratamento da doença e cita possíveis efeitos colaterais dos mesmos como disfunção cardíaca e do fígado, e alterações visuais.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) segue recomendando que a drogas sejam usadas apenas em estudos clínicos e sob supervisão médica.



Questionada por A CRÍTICA sobre como o novo protocolo do MS será aplicado no tratamento em pacientes internados no Hospital Delphina Aziz e no Hospital de Campanha Municipal Gilberto Novaes, ambos na zona Norte de Manaus, nem Secretaria de Estado da Saúde (Susam) nem a Prefeitura de Manaus se manifestaram até a conclusão desta reportagem.

Antes, o protocolo adotado pelo MS previa o uso dos medicamentos (usados no tratamento da malária) apenas por pacientes graves com monitoramento em hospitais. Após determinação do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), o novo modelo traz orientações de uso também em pacientes que apresentem sintomas leves da Covid-19 com dosagens específicas - sem que haja evidências científicas de eficácia e em meio a alertas de especialistas sobre os riscos que envolvem o uso do medicamento em situações não comprovadas.

A critério do médico e após exames, o documento prevê a indicação de cloroquina com azitromicina, com dosagens diferentes de acordo com o quadro apresentado pelo paciente.

“Apesar de serem medicações utilizadas em diversos protocolos e de possuírem atividade in vitro demonstrada contra o coronavírus, ainda não há meta-análises de ensaios clínicos multicêntricos, controlados, cegos e randomizados que comprovem o benefício inequívoco dessas medicações para o tratamento da COVID-19. (...) Assim, fica a critério do médico a prescrição, sendo necessária também a vontade declarada do paciente", diz um trecho do protocolo.

O que mais chama a atenção na nova determinação é que o paciente deve assinar um termo de consentimento que afirma que a cloroquina e a hidroxicloroquina podem causar efeitos colaterais "como redução dos glóbulos brancos, disfunção do fígado, disfunção cardíaca e arritmias, e alterações visuais por danos na retina", já que, como destaca o termo, "não existe garantia de resultados positivos, e que o medicamento proposto pode inclusive agravar a [minha] condição clínica, pois não há estudos demonstrando benefícios clínicos".

Para o médico infectologista da Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD), Marcus Lacerda, que liderou estudo clínico sobre a eficácia da cloroquina em pacientes graves da Covid-19, é difícil opinar sobre o novo protocolo do MS por, segundo ele, ser “político demais”.

“No momento, estamos investindo no uso de corticoides em pacientes internados, que são anti-inflamatórios mais potentes. Os resultados preliminares têm sido promissores, mas depende do momento em que fazemos [o uso dos medicamentos]. Estamos ainda avaliando”, disse ele, sem confirmar se o estudo clínico segue sendo feito no Hospital Delphina Aziz, unidade de referência no tratamento de pacientes diagnosticados com a Covid-19.

Lacerda já havia dito, em abril, que o uso da cloroquina poderia complementar todos os outros suportes utilizados no tratamento do paciente, como assistência ventilatória e medicações para os sintomas, como febre e mal-estar, contudo, ressaltou que o medicamento não é indicado para prevenir a doença e nem tratar casos leves.

Distante dos holofotes, os corticoides estão entre os principais medicamentos utilizados no tratamento da Covid-19. As substâncias possuem ação anti-inflamatória e são muito utilizados no tratamento de doenças crônicas como asma, artrite ou lúpus. A grande questão envolvendo o uso dos corticoides em pacientes infectados pelo novo coronavírus seria saber, exatamente, em qual fase da doença o medicamento deveria ser indicado. As análises estão em andamento.

Enquanto isso, a continuidade dos estudos com a cloroquina no Amazonas está em processo de avaliação por parte do grupo de pesquisa liderado médico infectologista Marcus Lacerda, composto também por pesquisadores do Instituto Leônidas e Maria Deane (Fiocruz Amazônia), da FMT-HVD e da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).

Cremam

O novo protocolo do Ministério da Saúde (MS), divulgado ontem, segue parecer do Conselho Federal de Medicina que, em abril, autorizou médicos a prescreverem a cloroquina em casos leves e uso domiciliar, mediante termo de consentimento do paciente ou dos familiares.

No Amazonas, em resolução publicada no dia 8 de abril, o Conselho Regional de Medicina do Estado (Cremam) foi o primeiro conselho de medicina a recomendar aos médicos a indicação do uso da cloroquina e hidroxicloroquina para pacientes com Covid-19 em casos leves, moderados ou graves, com uma condição: “desde que não possuam contraindicação ao uso dessas substâncias”, orienta um trecho da resolução Cremam 101/2020.

A resolução recomenda também que, além de medir os riscos dos medicamentos, os profissionais devem informar aos pacientes sobre os objetivos e os possíveis efeitos colaterais do tratamento.

OMS

A Organização Mundial da Saúde (OMS) segue afirmando que não há provas de que qualquer medicamento possa curar ou prevenir a Covid-19 e que o uso inapropriado de substâncias pode causar efeitos colaterais graves e até levar à morte. Ontem mesmo, a OMS disse que não recomenda a cloroquina e a hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19.

“As drogas devem ser usadas apenas em estudos clínicos, em hospitais e sob supervisão médica, pois apresentam efeitos colaterais. Muitos países limitaram seu uso para estudos clínicos”, alertou o diretor-executivo da organização, Michael Ryan, ressaltando que, mesmo assim, os países são soberanos para aconselhar seus cidadãos sobre o uso de qualquer medicamento.

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Repórter do caderno Cidades do jornal A Crítica. Jornalista por formação acadêmica. Já foi revisor de texto de A Crítica por quatro anos e atuou como repórter em diversas assessorias de imprensa e publicações independentes. Também é licenciado em Letras (Língua e Literatura Portuguesa) pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

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