Terça-feira, 14 de Julho de 2020
POLÊMICA

Fala de Mandetta sobre entrada do novo coronavírus por Manaus divide opiniões

Entre as lideranças da indústria e sindicalistas, há que defendeu que tudo não passou de achismo. Existe também quem acredita que a culpa da disseminação seja de Davi Alcolumbre



MANDETTA_EF8BE4BA-1451-4242-A811-0646854B8868.JPG Foto: Reprodução / Internet
18/05/2020 às 19:25

A declaração do ex-ministro da saúde, Luiz Henrique Mandetta de que o novo coronavírus (Covid-19) entrou em Manaus pelo Polo Industrial de Manaus (PIM) que, segundo o médico, demorou a fechar às fábricas e reduzir a escala de trabalho nas linhas de produção divide a opinião de lideranças da indústria e sindicalistas.

“Não concordo com o ex-ministro afirmando que o vírus entrou por Manaus por conta das atividades das indústrias e as viagens para a Ásia. Como se em outras regiões do Brasil não houvesse indústrias com relação e atividades com a China e demandassem, também, dessas viagens. Nunca pisou em Manaus enquanto ministro. Falar de achismo é muito fácil”, declarou o presidente do Centro das Indústrias do Estado do Amazonas, Wilson Périco.



Em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, Mandetta disse que a capital do Amazonas vive um colapso completo com o número elevado de mortes em casa e crise no sistema funerário. Para ele, a transmissão desorganizada no país ocorreu, em abril, em Manaus e Fortaleza.

“Manaus tem a Zona Franca, e lá as empresas demoraram muito para reduzir (a escala de trabalho), o vírus entrou pela vila operária. Nas cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, entrou pelas pessoas que tinham ido para a Europa, pela classe A, pelos Jardins, pela Barra da Tijuca, pelo Leblon. E o primeiro sistema que foi utilizado foi o particular, que atende muito menos gente, e agora está chegando à periferia, que é SUS e onde mora muita gente. Mas Manaus foi o contrário”, disse.

O presidente da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (Fieam), Antonio Silva avalia que seja apenas uma suposição de Mandetta e que não há comprovação. Para o empresário, o mais o provável é que o vírus tenha adentrado na capital por pessoas vindas do Rio de Janeiro ou São Paulo visto que o primeiro caso na cidade foi confirmado após esses dois estados.

 

“Quando começou a pandemia na China, a cidade onde iniciou foi totalmente isolada. Pessoas vindas da China para Manaus são muito menos, sem comparação, do que o fluxo constante do sudeste do país para Manaus. Como não sabemos quando esse vírus começou a se disseminar pelo mundo, qualquer teoria pode ser formulada. Tudo são teorias, se são verdadeiras, não sabemos”, declarou.

Na opinião do vice-presidente da Fieam, Nelson Azevedo, é apenas uma suposição do ex-ministro e a redução do número de óbitos no estado indica "dias melhores".

O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do Amazonas, Valdemir Santana, afirmou que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), foi o disseminador do vírus na capital. Santana frisou que Alcolumbre esteve em Manaus no dia 12 de março cumprindo agenda com parlamentares, empresários e com o governador do estado após ter contato com integrantes da comitiva presidencial que visitou os Estados Unidos. No segundo exame, Alcolumbre testou positivo para covid-19.

“Ele (Mandetta) falou a verdade, mas quem trouxe foi o presidente do Congresso que veio dos Estados Unidos. Ele foi para dentro da Moto Honda, participou do evento da Fieam e uma semana depois ficou doente. As empresas do distrito industrial estão fazendo um bom trabalho para evitar a contaminação e melhorar a situação dos trabalhadores”, disse.

No dia 13 de março, o governo do Amazonas confirmou o 1º caso positivo de coronavírus no estado. A paciente, mulher e de 39 anos, apresentava histórico de viagem recente para Londres, na Inglaterra.

Na entrevista, Mandetta disse ainda que nas cidades de Manaus, Belém e Fortaleza o "lockdown (bloqueio total) vai se impor". E, no momento, o Pará apresenta a situação mais complexa. “Estado que provavelmente vem agora com um número muito alto de casos, dobrando muito rápido e com sistema de saúde que vai ter que se desdobrar para atender”.

Números

O Amazonas totaliza 20,9 mil casos confirmados do novo coronavírus até segunda-feira, segundo boletim epidemiológico divulgado pela Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas. Desse total, 10,6 mil são de Manaus (50,97%) e 10,2 mil do interior, distribuídos em 59 municípios. No estado, a doença já registrou 1,4 mil óbitos.

Cloroquina pode causar arritmia cardíaca

O ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta disse que a ampliação do uso de cloroquina para pacientes com quadro leve do novo coronavírus pode elevar a pressão por leitos em Centros de Terapia Intensiva e ocasionar mortes em casa por arritmia cardíaca. Em entrevista à Folha de São Paulo, o ex-ministro afirmou que resultados iniciais de estudos, que recebeu ainda no governo, já indicavam riscos no uso do medicamento.

Começaram a testar pelos (quadros) graves que estão nos hospitais. Do que sei dos estudos que me informaram e não concluíram, 33% dos pacientes  que estavam em hospital, monitorados com eletrocardiograma contínuo, tiveram que suspender o uso da cloroquina porque deu arritmia que poderia levar a parada (cardíaca).Esse número assustou, é alto. Alguns médicos falaram que “não, a cloroquina tem que usar no primeiro dia para evitar complicação”, disse.

Mandetta afirmou ver pressão do presidente da República Jair Bolsonaro (sem partido) pela utilização da cloroquina, com uma tentativa de estimular o retorno das pessoas ao trabalho. Para Mandetta, o país atravessou até o momento apenas 1/3 da pandemia e deverá ter pelo menos mais 12 semanas, 3 meses, “duros” adiante.

“É uma coisa para tranquilizar, para fazer voltar sem tanto peso na consciência. Se tivesse lógica de assistência, isso teria partido das sociedades de especialidades (não do presidente). Por isso não tem gente séria que defenda um medicamento agora como panaceia. O Donald Trump (presidente dos EUA) defendeu a cloroquina, mas voltou atrás e parou. Nos EUA, isso gera processo contra o Estado. Aqui no Brasil não, se morrer, morreu”, disse.

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