Terça-feira, 14 de Julho de 2020
RETROSPECTO

Com apenas um mês, novo coronavírus explode em números no Amazonas

Com 1.206 casos da Covid-19 até ontem, Estado deve entrar na fase de aceleração descontrolada da doença



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13/04/2020 às 12:01

Há um mês, o Amazonas confirmou o primeiro caso do novo coronavírus (Covid-19), o primeiro também da região Norte e da região amazônica. Do primeiro caso confirmado à primeira morte, no dia 24 de março, os números de novos casos “explodiram” na capital e no interior ultrapassando os 1 mil casos confirmados (1.206) neste último final de semana, com 16 municípios atingidos pela doença, além da capital Manaus, que segue como epicentro de pessoas infectadas no Estado.

Ainda no começo do mês, o Amazonas rapidamente foi elevado ao preocupante segundo maior coeficiente do Brasil, com 19,1 casos confirmados por 100 mil habitantes, praticamente entrando na fase de aceleração descontrolada de casos, segundo boletim divulgado pelo Ministério da Saúde.



A “paciente zero” do Estado foi uma mulher de 39 anos que retornou de Londres (Inglaterra) no dia 11 de março, apresentou sintomas e procurou o serviço de saúde no dia seguinte. Ela se recuperou em casa. Até então, a infecção importada parecia ser um caso isolado, pois demorou cinco dias para o Amazonas registrar casos novos (mais dois no dia 18 de março), na mesma semana em que as aulas da rede pública municipal e estadual foram suspensas por tempo indeterminado e, por decreto governamental, o comércio não essencial teve que fechar as portas.

A partir de então, os boletins da Fundação de Vigilância em Saúde (FVS-AM) passaram a registrar casos novos todos os dias, até que, seis dias depois, no dia 24 de março, o Amazonas registrou a primeira morte por Covid-19 - do empresário Geraldo Sávio da Silva, 49, de Parintins (um dos primeiros municípios fora da capital a registrar infecções do novo coronavírus).

Silva, que era dono de uma ótica e de uma livraria na Ilha Tupinambarana, contraiu o vírus durante encontro de pescadores em Manaus. Ele procurou o hospital da cidade com problemas respiratórios e logo foi transferido para o Hospital e Pronto-Socorro Delphina Aziz, na Zona Norte da capital amazonense, onde chegou a ser tratado com o medicamento cloroquina, mas não resistiu às complicações da Covid-19.

E não demorou muito para que as infeções deixassem de ser locais e passassem a ser comunitárias - quando não é possível rastrear qual a origem da infecção, indicando que o vírus circula entre pessoas que não viajaram ou tiveram contato com quem esteve no exterior. O então secretário de Saúde do Amazonas, Rodrigo Tobias, divulgou que 95% dos leitos públicos de UTI do Hospital Delphina Aziz - unidade de referência para o tratamento da Covid-19 no Estado - estavam ocupados. Logo depois, Tobias foi substituído pela biomédica paulista Simone Papaiz, anunciada como a nova titular da Susam na quarta-feira passada.

O Governo do Amazonas prevê que o pico de contaminação da Covid-19 no Estado deverá ocorrer entre o final de abril e o início de maio.

Desmentido

Na última sexta-feira, dia 9 de abril, o prefeito Arthur Neto (PSDB) disse, em entrevista à CNN Brasil, que o sistema de saúde pública de Manaus colapsou e que a rede privada está no limite. “Está havendo um colapso funerário. Os enterros estão crescendo de forma exponencial”, declarou.

Mas o presidente das Empresas Funerárias do Amazonas, Fabrício Melo, contestou a declaração do prefeito de Manaus. “Garantimos que, se depender de nossas empresas, não teremos colapso. Sabemos das dificuldades dos cemitérios públicos, porém já contamos com crematório à disposição da Prefeitura e do Governo (do Estado), assim como cemitérios particulares”, afirmou Melo.

Na opinião do presidente, a falta de estrutura física nos cemitérios públicos está deixando a população preocupada. Ele disse ainda que, nos últimos anos, tem acompanhado dezenas de reuniões para tratar da modernização em todo o sistema funerário.

E em entrevista o jornal A CRÍTICA na semana passada, o proprietário da Funerária Viana, Manuel Viana, alertou para a falta de vagas nos seis cemitérios de Manaus. Ele usou como o exemplo a situação da cidade de Nova Iorque, epicentro da pandemia do coronavírus nos Estados Unidos, onde o poder público tenta implementar um plano emergencial para aliviar a crescente demanda em necrotérios e funerárias.

“Se o poder municipal não tomar providências, aqui chegará a este nível. Há dez anos alertamos sobre isso”, afirmou Viana. “Só temos vagas no (cemitério) Nossa Senhora Aparecida. Se esquentar aqui, a previsão não é boa”, declarou Viana.

App para monitorar

A FVS-AM tem recomendado que a população baixe em seu celular o aplicativo SASi, que monitora pacientes com sintomas leves da Covid-19. Isso evita que os hospitais entrem em colapso e, ao mesmo tempo, que haja contaminação entre os pacientes.

Mais nove mortes registradas ontem

Em boletim divulgado na tarde de ontem pela FVS-AM, o Amazonas registrou 156 casos do novo coronavírus (Covid-19) em 24 horas, totalizando 1.206 casos.  É a segunda maior alta de novos casos (o recorde é 168 registrado no dia 8 de abril). Do total, 1.053 são de Manaus e 153 no interior. Até ontem, havia 813 pacientes que estão se recuperando em isolamento social, o que representa 67,41% do total.

No interior, o maior número de casos está em Manacapuru (87), em seguida Iranduba (13), Itacoatiara (11), Parintins (11), Santo Antônio do Içá (7), São Paulo de Olivença (5), Tabatinga (4), Anori (3), Tonantins (3), Careiro da Várzea (2) e Presidente Figueiredo (2). Cinco municípios têm um caso cada: Boca do Acre, Careiro Castanho, Manicoré, Novo Airão e Tefé

Mais nove mortes por Covid-19 foram confirmadas, totalizando 62 óbitos no Amazonas - a taxa de letalidade já chega a 5%. Dos óbitos registrado ontem, seis foram de pacientes de Manaus, dos quais quatro estavam em unidades privadas de saúde. Um óbito foi no município de Parintins - uma mulher de 85 anos, que tinha hipertensão e cardiopatia e morreu no dia 6 de abril.

Entre os casos positivos do novo coronavírus no Estado, há 193 internados, sendo 111 em leitos clínicos e 82 em Unidades de Terapia Intensiva (UTI). Há, ainda, outros 406 pacientes suspeitos internados, que aguardam a confirmação do diagnóstico.

Em contrapartida, o número de pacientes que estão fora do período de transmissão do vírus subiu de 44 para 138.

A grande circulação de pessoas explica rápido aumento de casos.

Baixa adesão ao isolamento social 

A quebra do isolamento social por parte dos amazonenses tem sido apontado como uma das causas do aumento exponencial de casos de Covid-19 no Estado. “Manaus é a capital brasileira com menor adesão ao isolamento social. Enquanto as pessoas continuarem se expondo ao vírus desnecessariamente, teremos um aumento expressivo no número de casos e, consequentemente, mais mortes nos próximos dias”, alertou a diretora-presidente da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM), Rosemary Pinto.

Para o secretário de Vigilância em Saúde, Wanderson Kleber de Oliveira, é preciso manter o isolamento social para que não seja necessária medida mais drástica, como o bloqueio total – o “lockdown”, em inglês, como é mais conhecido. Oliveira destacou que esta seria “uma medida que traz impactos econômicos expressivos” e a expectativa é que isso não seja necessário no Brasil.

“Para isso é fundamental que o distanciamento social não seja relaxado, especialmente em Manaus, Fortaleza, Rio de Janeiro e São Paulo”, disse Wanderson, em entrevista coletiva, no último sábado (11). “Manaus está chegando quase na capacidade máxima de atendimento dos hospitais. Se não tomarmos uma medida, o número de casos vai ultrapassar a capacidade de atendimento e as pessoas poderão ficar desassistidas”, completou ele, anunciando que a cidade recebeu 20 novos respiradores e que haverá aumento de 350 leitos no Hospital Delphina Aziz.

Sobre Manaus ser uma das cidades que mais resistem ao isolamento social, o médico infectologista Antônio Magela, da Fundação de Medicina Tropical do Amazonas (FMT-AM), avaliou que devido capital do Estado ser o centro econômico da região, o fluxo de pessoas tende a ser sempre intenso.

“Temos um parque industrial com empresas de vários países do mundo, inclusive de lugares onde a pandemia foi mais evidente. Por isso, o fluxo de pessoas desses países vindo para Manaus, ou saindo daqui, é inevitável. É um fator que, com certeza, contribuiu para que nós tenhamos um número muito grande de casos confirmados de Covid-19”, apontou Magela.

*Colaborou Daniel Amorim.

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Repórter do caderno Cidades do jornal A Crítica. Jornalista por formação acadêmica. Já foi revisor de texto de A Crítica por quatro anos e atuou como repórter em diversas assessorias de imprensa e publicações independentes. Também é licenciado em Letras (Língua e Literatura Portuguesa) pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

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