Quinta-feira, 02 de Julho de 2020
CENÁRIO

Aumento no trânsito em Manaus cria cenário de pico de óbitos por Covid-19

Conclusão é de estudo organizado pelo Atlas ODS Amazonas e traça, pela primeira vez, paralelo entre o trânsito intenso da capital com o pico no número de mortes por covid-19



WhatsApp_Image_2020-05-18_at_12.59.27_B7622260-F40A-4322-BDC5-BD75C46763B7.jpeg Foto: Euzivaldo Queiroz
18/05/2020 às 15:21

O novo boletim do Atlas ODS Amazonas divulgou um estudo em que correlaciona o pico de óbitos por Covid-19 com o aumento do trânsito em Manaus. De acordo com o estudo, que contou também com pesquisadores do laboratório Hidrogeo do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), os picos de casos fatais da doença ocorrem após 18 dias dos picos de tráfego na cidade.

Para avaliar o impacto da variabilidade da mobilidade urbana na curva epidemiológica da pandemia, a curva de congestionamentos no trânsito de Manaus foi correlacionada com os índices de “velocidade” de óbitos e de sepultamentos fornecidos pela Fundação Vigilância em Saúde (FVS-AM) e Secretaria Municipal de Limpeza Urbana (Semulsp). 



Os cientistas, então, cruzaram dados fornecidos pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (IDB), que utiliza o ‘Waze for Cities Program’, uma espécie de geolocalização por satélite utilizada em carros, em relação a dias da semana, datas especiais e de eventos específicos relacionados com as medidas de isolamento e distanciamento social.

É a primeira vez que um estudo relaciona mobilidade de tráfego a disseminação e a mortalidade causada pela Covid-19, tendo como base a cidade de Manaus, que ganhou os noticiários internacionais após uma enxurrada de relatos apontarem caos no sistema funerário em decorrência da pandemia.

De acordo com o estudo, a intensidade de tráfego pode ser monitorada pela intensidade de congestionamentos, sendo estes dados utilizados como o percentual de variação em relação ao período anterior à pandemia.

"Concluiu-se que existe correlação forte e estatisticamente significativa entre o índice de intensidade de tráfego e a velocidade de óbitos e de sepultamentos em Manaus. Essa correlação ocorre com uma defasagem de tempo igual ao período indicado no estudo", diz trecho da pesquisa.

O estudo leva o nome " Impactos da mobilidade urbana na mortalidade e na difusão da COVID-19 no Amazonas", e foi publicado na edição 6 do Atlas.  "Ou seja, em torno de 18 dias após um pico de tráfego na cidade se segue um pico de óbitos por covid-19. A correlação embora significativa é menos forte com os dados de sepultamentos, como era esperado, uma vez que esses dados incluem mortes por outras causas. De modo contundente, essas análises indicam que uma maior mobilidade urbana provoca um aumento na mortalidade por COVID-19 na cidade por anular o efeito das medidas que visam assegurar maiores taxas de isolamento e distanciamento social", alerta o estudo.

No período analisado, o maior pico observado até o momento ocorreu no domingo do dia das mães (10).  Os pesquisadores chamam atenção para uma tendência de intensificação na circulação de transporte de passageiros observada nas últimas três semanas e consideram ser preocupante se considerado seu provável impacto no aumento da propagação da doença. "O que a gente pode esperar, com a constatação de que há um pico de trânsito no Dia das Mães, é que 18 dias depois se espere uma aceleração no número de óbitos. Pode ser que o número já tenha caído bastante, mas 18 dias depois do Dia das Mães, vai haver um auimento relativo no número de casos, mas isso não quer dizer que haverá uma mudança de tendência, de que novamente o número de óbitos vá voltar a crescer. Isso vai depender, dentre outras coisas, se mantivermos a política de isolamento social por tempo suficiente para dissipar a doença em toda a população suscetível", destacou o professor doutor Henrique Pereira, coordenador do Atlas ODS Amazonas. 

Decretos

A pesquisa revelou que, após o Decreto Municipal 4.776, de 13 de março de 2020, o pico de intensidade de tráfego vem ocorrendo sempre aos domingos (em torno dos 60%), ao contrário do esperado e se comparado com padrões de cidades de outros países latino-americanos. Por outro lado, observa-se uma redução de congestionamentos nas quintas e sextas feiras (-90 a -80%) (Imagem abaixo). 

Em Manaus, os decretos que se sucederam parecem não ter provocado uma maior redução na intensidade do tráfego após o segundo decreto estadual da série, conforme a pesquisa. "Essas variações na mobilidade urbana podem se decorrentes do comportamento da população de descumprimento das medidas de isolamento e distanciamento social", diz trecho do estudo.

Mais cedo, o matemático Alexander Steinmetz da Ufam, que lidera estudo da curva epidemiológica do vírus em manaus, afirmou que caso medidas de isolamento sejam afrouxadas, a capital pode ter um cenário de pico em junho.

Vetor 

A função da capital como vetor de acesso para outros municípios, com intenso fluxo de pessoas e mercadorias na rede, que circulam por aeroportos, rodovias e rios, contribuíram para expansão  da doença para municípios como Parintins, Tabatinga e Tefé.

Os aeroportos e portos nas cidades mencionadas possibilitam que a doença “salte escalas” geográficas representativas e as rodovias funcionam como vetores para contágio. "Ambas as formas de difusão por expansão ocorrem de forma combinada no estado", explica trecho do estudo.

Nos municípios da região metropolitana como Manacapuru, Iranduba, Itacoatiara, Novo Airão, Presidente Figueiredo, entre outros, a difusão por contágio, apresentou elevado aumento dos casos ao longo do tempo, ou seja, a conexão com a capital Manaus, os deslocamentos diários da população e o baixo isolamento e distanciamento social da população, foram fatores que contribuíram para difusão, conforme a pesquisa

"Em maio, outros municípios vêm cooperando para a difusão por relocação da doença, como Tabatinga, Tefé, Boca do Acre, entretanto, o centro epidêmico Manaus, permanece se expandindo demonstrando no período atual uma difusão híbrida no estado", aponta o estudo.

Até o último boletim epidemiológico divulgado pela FVS, passa de 20.328 casos confirmados do novo coronavírus no estado, elevando para 1.413 o número de mortes pela doença.

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