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O Pacú Africano e o Caboclo Pávulo

Artigo de Domingo - 11 de junho de 2017 10/06/2017 às 00:00 - Atualizado em 10/06/2017 às 22:27
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Assisti surpreso a um documentário que falava de um misterioso peixe carnívoro nos rios da África. A criatura, desconhecida dos nativos, atacava pescadores e banhistas, causando ferimentos sérios. As dilacerações eram semelhantes a um ataque de piranhas, entretanto com maior gravidade. No decorrer do programa, um especialista era chamado, um exemplar da espécie era capturado e o mistério desvendado. Tratava-se, por incrível de pareça, do nosso pacu, a iguaria que aqui o único estrago que causa é a azia, tanto que se diz que ele é ótimo para memória: depois de comer, não dá pra esquecer.

O pacu foi introduzido nos rios da África como uma alternativa à pesca e à alimentação. Mas os rios africanos não são os rios da Amazônia. Pobres em sedimentos, e na alimentação original daquele peixe, como sementes, frutas e outros materiais vegetais, a espécie teve que se adaptar. Passou a se alimentar de outras espécies, tornou-se predador, cresceu em tamanho e em voracidade. Virou um “pacuzão”. Vendo a imagem, parecia mais um ruelo que um pacu. Aquela velha história: não dá para desrespeitar as diferenças. Nem tudo que é bom para um lugar é bom para outros, mesmo que as intenções sejam as melhores. O inferno testemunha bem isso!

Essa história, contada na África, também se passa em inúmeros outros rios, infelizmente sem documentários e com pouquíssima visibilidade na mídia. Lá no nordeste brasileiro, no Rio Francisco, a introdução de espécies não nativas causou consequências desastrosas à pesca, destruindo boa parte dos peixes autoctones daquela bacia. Importaram soluções imediatistas ao aumento da produção pesqueira que acabaram com a pesca em médio e longo prazo. Um episódio muitas vezes contado e poucas vezes ouvido, ou assimilado. Engraçado pensar que esse comportamento também se transfere constantemente às soluções de problemas urbanos.

Falamos em soluções de transporte público, em experiências bem sucedidas, de Curitiba, e até de Bogotá, ignorando as imensas diferenças entre essas cidades e Manaus. Presumimos que aqueles centros urbanos têm rotinas exatamente iguais à nossa capital, que suas populações possuem costumes semelhantes, que o traçado urbano e a distribuição populacional em zonas é a mesma. E que o sucesso de lá inevitavelmente se repetirá, na Barelândia. E nos perguntamos depois por que aqui não dá certo!?

E esse desejo de importação não se reporta somente à questão do transporte público, mas a quase tudo. Parece “bacana” incluir no repertório exemplos do tipo “por que a técnica de calçamento do passeio público de Miami”, “a solução da venda ambulante em Paris”, ou “a revitalização dos prédios da área portuária de Londres”. Falamos, falamos, falamos, mas na capital do mormaço nada acontece. Outro dia fui abordado por um leitor, o Sr. Paulo, que com uma simpatia extrema me citou Tolstoi: “Quem fala de sua aldeia, fala do mundo”. Fiquei emocionado e lembrei de outra frase do escritor russo: “Se queres ser universal começa por pintar a tua aldeia”. Talvez seja a hora de pintarmos e pensarmos nossa aldeia, deixando de lado a ignorância e o deslumbre pávulos! Obrigado Sr. Paulo, seguirei o compromisso com nossa aldeia barezinha. #Pensa