Terça-feira, 14 de Julho de 2020

Novos Tempos

Pandemia do novo coronavírus me fez refletir sobre a nossa enorme capacidade de adaptação. Fumar, que era sinal de status, por exemplo, hoje passa longe disso.


04/04/2020 às 11:40

A pandemia do novo coronavírus continuou sendo o assunto da semana. Desconfio que será ainda por algum tempo. Acabei refletindo sobre a nossa enorme capacidade de adaptação. Aos quase 54 anos, que serão completados em agosto, o tempo, aliado à boa memória e a curiosidade que me são peculiares, permitem que eu acumule muita informação, coisas que talvez muitos leitores sequer façam ideia, de acordo com o ano de nascimento.

Lembrei, por exemplo, que colocávamos açúcar no suco de laranja. Que esse papo de fibras de grãos integrais, de glúten e de gorduras boas nem existia; ou então era coisa de “bicho-grilo”. Nossas porções de almoço e jantar eram bem maiores do que a média atual e as comidas gordurosas eram imensamente apreciadas; mas tão gordurosas que até aqueles que atualmente as apreciam considerariam excessivo.

E o cigarro? A gente fumava durante o vôo, na sala de trabalho, na sala de aula, em todos os lugares, sem cerimônias. Fumar parecia até dar um certo status e charme social. Havia comerciais de marcas de cigarro, os mais diversos, associados a atributos ambicionados pela sociedade, inclusive de esportes radicais (Hollywood, o sucesso, ao som de Peter Frampton, com Breaking All the Rules). Exatamente desse jeito e sem a menor cerimônia. Hoje as pessoas passam por você na rua, a céu aberto, e abanam seus narizes, num claro gesto de desagradável, quando você está fumando.

Sexo com menores era, de certa forma, consentido. Não se falava no assunto, mesmo sabendo que ele existia. E ninguém ousava abordar. Aliás, em termos de sexo e relacionamento já vivemos muita coisa complicada. Um bom exemplo é a violência doméstica: o lema era “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher”! E não importava se a esposa ficasse transfigurada fisicamente, isso, convencionava-se, só dizia respeito ao casal. E você sabia que não havia divórcio? Sim, a autorização para um casal de separar surgiu no Brasil por uma lei de 1977. Havia ainda uma outra instituição, o “desquite”, mas esse é um assunto longo...

Muitas, muitas coisas, estabelecidas, aceitas, usuais e pouco questionadas publicamente mudaram, no Brasil e no mundo. A gente não muda só. E elas acabaram sendo, por maior resistência que houvesse, no início, plenamente aceitas e incorporadas à nossa rotina. A gente dirigia sem cinto de segurança, sabia? Até o Paulo Maluf começar um movimento em São Paulo. Aliás, a gente podia beber quando estava dirigindo... Beber muito era, em determinadas situações, relacionado à força, à masculinidade. Cansei de ouvir: “dirijo melhor bêbado que sóbrio”.

Racismo, direitos sociais, representatividade... essas e muitas palavras são relativamente novas em nosso vocabulário do dia-a-dia. A mesma coisa pra objetos. Camisinha, por exemplo: não era assim algo tão usual. Hoje ela ainda salva vidas, ou da morte, ou da sobrevida a uma doença crônica terrível. Sim, nós temos uma enorme capacidade de nos adaptarmos, de nos modificarmos, de avançar numa vida melhor e mais adequada.

Talvez essa pandemia, ao final, nos faça pensar num outro mundo, numa outra forma de produção de riquezas, em outras ambições sociais e individuais. Que sobrevirá a ela uma crise econômica mundial, disso ninguém tenha dúvidas. Mas para onde isso tudo vai apontar? Ninguém sabe, mas pode ser para um mundo melhor. Depende muito, muito, muito de nós e de nossas atitudes. E você, vai fazer o que? Bora lá? #Pensa


Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.