Segunda-feira, 13 de Julho de 2020

Bolsonaro nunca será um estadista, azar do BraZil

Por Liege Albuquerque; a autora é mestre em ciências políticas pela USP e jornalista com diploma da UFAM. A foto abaixo é de Raphael Alves


01/08/2019 às 15:51

Vários articulistas do país afora passaram a semana criticando a truculência de Bolsonaro e sua perversidade em sua crueldade mais recente, no descaso ao comentar sobre a tortura de um pai de família assassinado na ditadura enquanto banalmente cortava os cabelos. Foi criticado à esquerda e à direita, até o PSDB soltou nota rechaçando sua fala. Bolsonaro é indecoroso, incompetente e autoritário. Mas não vou repetir essa tristeza que alcança a todos com um pingo de compaixão ou empatia pela dor do outro, já estamos pesados de tanto disso nesse governo de insanos.

Quero relevar outro viés, outro que os que votaram nele esperando um governo que colocasse o país num campo próspero economicamente, mesmo que custe menos justiça social (a lógica da direita), estão assistindo aos poucos ir por água abaixo, esse sonho de riqueza a todo custo. Sonho da direita arrastado exatamente por esse comportamento nota zero em progressismo para quem comanda um país com dimensões continentais e cobiçado como o Brasil.

Meu foco é na grave consequência à diplomacia (e futuros negócios, obviamente) internacional essa sua postura ditatorial, sem finesse ou qualquer traço que possa moldar um estadista, como foram JK, Lula e FHC. Os Estados Unidos de Trump podem querer fechar negócios pequenos e marketeiros com um país governado com um quase igual na truculência (Bolsonaro é pior que Trump, claro). Mas nenhum outro país de primeiro mundo entrará num barco com um sujeito visceral e truculento no poder, que tem ídolos como o ditador Alfredo Stroessner, o doente que governou o Paraguai de 1954 a 1989, responsável por milhares de prisões arbitrárias, torturas e desaparecimentos.

O deboche de Bolsonaro ao braço direito do presidente da França esta semana foi surreal. Com receio de ser cobrado por sua estapafúrdia posição quanto à demarcação de terras indígenas, simplesmente o presidente não recebeu o ministro francês dos Negócios Estrangeiros, Jean-Yves Le Drian. O francês, óbvio, nem se abalou e foi em busca de conversar com organizações não governamentais para tentar ajudar na resistência a essa postura explícita de devastação da Amazônia do governo federal.

Os países democráticos de primeiro mundo andam de mãos dadas com direitos humanos, com ampliação de licenças maternidades, punição à violência doméstica, abertura de direitos a homossexuais, rechaço ao racismo. Embora alguns tenham tido uma guinada à direita, a grande maioria está mais para construir pontes do que muros.

Como bem colocou o cientista político André César em sua análise à Hold Assessoria, não é só o chega-pra-lá no governo francês dado por Bolsonaro que deve nos preocupar. Para o bem do Bloco Sul Americano, o acordo Mercosul-União Europeia, mesmo com a dinâmica do fato novo criada quase diariamente pelo governo brasileiro, seguirá um processo bem lento de consolidação. “A postura de Bolsonaro deverá contribuir para novos atrasos no tortuoso cronograma de negociações. A única certeza é que não será o atual governo quem celebrará a implementação do acordo”, diz o analista.

Bolsonaro tem apenas sete meses no governo e já começou a perder apoios de pessoas mais esclarecidas que se colocam à direita. Agora, como impeachment não é mais tabu no Brasil que já derrubou dois, basta o presidente boquirroto começar a perder seu apoio no Congresso para começar sua decadência política. Foi assim com Collor e Dilma. Um aceno de Rodrigo Maia, nessa possibilidade de Congresso saindo de fininho, foi o apoio do presidente da Câmara ao jornalista Glenn Greenwald, ao direito à liberdade de expressão garantida na Constituição, com o sigilo na fonte, na leva de conversas vazadas que está apenas no começo.


Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.