Terça-feira, 27 de Outubro de 2020

Que a gente ordinária se pronuncie

É preciso reinventar as alianças, fazer circular de igarapé a igarapé as denúncias contra pactos destruidores que estão sendo confeccionados pelo poder executivo para a Amazônia


A Amazônia está sendo empacotada pelo Governo Federal. Os cordões de amarre do pacote estão cada vez mais fortes e a asfixia da região é exibida por janelas largas antes e depois da reunião ministerial ironicamente realizada em 22 de abril quando a Pátria “acima de tudo” revelou a agenda de interesses do seleto grupo de filhos da mãe gentil.

O fogo voa e se abriga com facilidade no território amazônico. Destrói vidas. Seleciona produtos para o comércio ilegal permanecer em atividade. Quem gritar por socorro morre. A letargia da reação torna-se cúmplice do crime acolhido por um perdão nefasto. Talvez, o propósito é o de combinar a permanência dos ataques ao ritmo lento de cumprimento da legislação até que esta seja completamente modificada.

A chave da conivência ao desmate e às queimadas na Amazônia abriu a última porta. A “boiada passa” e a cada dia um rebanho em maior número de cabeças. Também passam revólveres e investidores desse negócio sangrento. O ponto do não retorno deixa de ser alerta científico para concretizar-se.

Os mecanismos de controle, legal e legitimamente construídos, são arremessados fora ao mesmo tempo que outros comportamentos ganham a cena pública, recebem o incentivo oficial e são apresentados como naturais.

A maior fatia das populações da Amazônia, constituída por mulheres e homens cujos direitos humanos são ignorados, enfrenta historicamente os ciclos desenvolvimentistas lançados para a região. Pauperização, miséria, doenças e perda da terra onde morava é o saldo dos programas integracionistas elaborados muito longe da região, em gabinetes fechados ou em passeios de barcos luxuosos feitos por autoridades governamentais e representantes empresariais nos rios amazônicos.

É esse enfrentamento dos renegados da Pátria que poderá se tornar a voz mais agregadora, a partir do chão de terra, das margens dos rios e no asfalto das cidades amazônicas, na luta contra os pactos destruidores que estão sendo confeccionados pelo poder executivo para a Amazônia.

Reinventar as alianças. Fazer circular as denúncias de igarapé a igarapé, nas calhas dos rios, nas orlas das cidades e destas para o centro. Convocar as instituições e os guardiões da cidadania, do respeito aos povos, à Natureza; os sonhadores e os utópicos de um bem-viver amazônico a participarem do tecimento de novos elementos da frente de resistência ao projeto destruidor da Amazônia. A chama nela acesa é para incendiar corações e almas movimentando-as contra as labaredas da morte produzida e no desmantelamento do pacote oficial.   

Que venham ser parte do movimento toda a gente ordinária, rejeitada na reunião ministerial, e façam os atos ecoarem; tremer as paredes da sala, do palácio da tirania; e rasguem o paletó do racismo, da discriminação e do autoritarismo. Pedagogicamente acionem os mecanismos por meio dos quais se faz recuar a boiada, os donos e os amigos dos bois.


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