Quarta-feira, 28 de Outubro de 2020

Padrasto estupra, sociedade violenta

Um punhado de católicos e evangélicos deram as mãos barulhentas para agir em nome de um Deus perverso


Peço perdão a menina violada pelo tio, por segmentos religiosos, de feministas, do parlamento, da medicina e da sociedade brasileira. Violada duplamente. Perdão! Não conseguimos assegurar a garantia constitucional do direito de ser criança e viver a infância com dignidade.

É mais um duplo crime. No seu corpo e na sua alma, agredidos de forma vil, escancaram-se os pactos da bestialidade humana, da hipocrisia da fé, da política partidária, de governos, de alguns pensamentos e gestos feministas. Não importaram a violação e o sofrimento a que foi submetida dos seis aos dez anos, a que ainda está submetida; importaram defender os dogmas, as crenças, as verdades restritas e apoiar o triunfo do patriarcado institucionalizado.

Nas tendas das igrejas, um punhado de católicos e evangélicos deram as mãos barulhentas para agir em nome de um Deus perverso (inventado pelo próprio homem), macho e patriarcalizado, na tentativa de impedir a interrupção da gravidez e acomodar um tipo de fé que exala o cheiro estragado dos fanáticos andando sobre cadáveres com a bandeira do Divino, manchando-a.

São ávidos por um tipo de justiça renegadora da essência dos direitos humanos da pessoa vítima das violências. Rezam e oram em louvor a esse Deus macho e violento a fim de adquirirem, na terra, o passaporte para, em nome dele, exercitarem a crueldade.

A condição de cristão exige substanciar o adjetivo daqueles e daquelas que se tornaram seguidores de Jesus Cristo. Reivindica a coragem de derrubar os prédios e as mesas dos mercadores da fé e promover ambientes de milagres em tempos hostis e nos templos materialmente ricos dos que se apresentam como representantes de Deus e seguem as pegadas de Jesus e das Marias que o seguiram, o ampararam e o fortaleceram em atitudes de resiliência.

A realidade de violação de crianças e adolescentes e de mulheres adultas aparece em escala de crescimento no Brasil. Possivelmente, como apontam estudos, o país vive a potencialização das violências neste momento. Há a participação direta e assídua de importantes setores da sociedade, aparentemente divergentes, na reafirmação, na justificativa e na defesa de condutas que ferem os acordos legais, a legislação em vigor no País, os estatutos. Os crimes são atenuados, alguns defendidos, outros acobertados inclusive por acionamentos de uma política religiosa que amplia bancadas de poder.

O 13º Anuário Brasileiro de Segurança Pública (divulgado no ano passado com base de 2018) registrou 66 mil estupros no Brasil e, desse total, 53,8% das vítimas foram meninas de até 13 anos de idade. A média brasileira de estupros é de 180/dia e os autores, na maioria absoluta dos casos, são pessoas muito próximas às crianças: pai, avô, tio, padrasto. O Ministério da Saúde, no período de 2011 a 2016, contabilizou 4.262 estupros de adolescentes dos quais 1.875 eram meninas de 10 a 14 anos.

Diante desse panorama, não é Bolsonaro presidente da República quem ofende, agride, tripudia e repugna. É uma parcela de brasileiras e brasileiros afeita ao programa que Bolsonaro representa e realiza. É ela que impulsiona a popularidade da imagem e assegura o êxito da violência como instrumento de política governamental, parlamentar e judicial em vigor no Brasil.

Perdão, crianças violadas em casa, nas ruas e pelas instituições. Que possamos sentir a dor e reagir com sabedoria, respeito e outro componente de fé em ação de mudança interior para que a parte de luz se sobreponha à da sombra do ser humano.

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