Quarta-feira, 28 de Outubro de 2020

Na marcha, com padre Paulo

"Carta ao Povo de Deus" encarna bispos e padres que andam junto, escutam e reúnem os pobres para o mutirão da obra de defesa dos direitos humanos


A “Carta ao Povo de Deus”, assinada por 152 bispos é um dos posicionamentos demarcadores da escrita atual da história do Brasil. Religião e política estão imbricadas da pior maneira: para negócios lucrativos nos territórios econômico e de espaço de poder: em nome de um Deus castigador, perverso e capitalista muitos pregadores andam por aí, promovem destruições e enriquecimento pessoal-familiar.

O documento dos bispos, lançado em 30 de julho, é sopro de esperança aos desesperançados e de esclarecimentos fundamentais em meio ao joio. Apresenta uma síntese das questões críticas no País, reflexões e questionamentos que necessitam ser feitos pelas cidadãs e cidadãos interessados em uma nação mais saudável.

A carta é instrumento que também cobra mais ação e inclinação da Igreja Católica brasileira à causa dos pobres e dos povos em situação de vulnerabilidade e vítimas da violência de todas as ordens patrocinadas pelo atual governo e por setores habituados a saquear, explorar gente e recursos naturais e matar. Os que assinaram a carta representam 31,7% do total de bispos no País (479, dados de 2019); 49,03% (quando a conta é feita apenas com os bispos na ativa, 310). Dos padres em atividade (27,3 mil, dados Ceres/CNBB-2018), um pouco mais de mil manifestaram apoio à iniciativa desse grupo de autoridades da Igreja. No conjunto, esses bispos e padres são aqueles que veem o conflito, assumem a causa e seguem nela no sol, na chuva, entre as balas direcionadas, o fogo na floresta e a contaminação dos rios. Eis trechos da carta:

“(...) As escolhas políticas que nos trouxeram até aqui e a narrativa que propõe a complacência frente aos desmandos do Governo Federal, não justificam a inércia e a omissão no combate às mazelas que se abateram sobre o povo brasileiro. Mazelas que se abatem também sobre a Casa Comum, ameaçada constantemente pela ação inescrupulosa de madeireiros, garimpeiros, mineradores, latifundiários e outros defensores de um desenvolvimento que despreza os direitos humanos e os da mãe terra. Não podemos pretender ser saudáveis num mundo que está doente”.

Convivemos, assim, com a incapacidade e a incompetência do Governo Federal, para coordenar suas ações, agravadas pelo fato de ele se colocar contra a ciência, contra estados e municípios, contra poderes da República; por se aproximar do totalitarismo e utilizar de expedientes condenáveis, como o apoio e o estímulo a atos contra a democracia (...). O desprezo pela educação, cultura, saúde e pela diplomacia também nos estarrece (...).”

O documento encarna bispos e padres que andam junto, escutam e reúnem os pobres para o mutirão da obra de defesa dos direitos humanos de mulheres, dos negros, dos indígenas e dos quilombolas, de todos que permanecem à margem desses direitos. São eles expressão da Igreja que anda, enxerga, sente e faz acontecer. É como a marcha de padre Paulo Tadeu Barausse, segue, persiste, escuta e busca saídas. A carta tem endereço e carrega as vozes de milhões de brasileiros e da Amazônia para além do medo da repressão e de um poder que submete pessoas ao assujeitamento.


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