Quinta-feira, 02 de Julho de 2020

Indígenas e a pandemia Covid-19

Os povos indígenas e o combate ao coronavírus é tema fora da pauta da grande mídia e são "invisíveis" nas estratégias governamentais de prevenção.


Os povos indígenas do Brasil permanecem invisibilizados dentro das iniciativas governamentais, desta vez, na prevenção contra o avanço do coronavirus, seu tratamento em casos suspeitos ou comprovados.

Em Manaus residem aproximadamente 35 mil indígenas (dados da Copime/2019), a maioria vive em condição precária e é vítima de violência generalizada. Até hoje, a principal referência numérica é o Censo 2010 do IBGE. De acordo com esse estudo estatístico, no Amazonas são 183,5 mil pessoas – corresponde a 5,2% do total da população do Estado; na Amazônia, 306 mil de um total estimado em 896.917 indivíduos autodeclarados indígenas. Na região do Alto Solimões, vive a maior população indígenas do Brasil, os ticunas que em 2012 somavam uma comunidade de 46.065. Em nível mundial, o Brasil detém o maior número de indígenas isolados (IBGE/2020), com 114 grupos e aproximadamente mil brasileiros.

Para o médico e professor Marcus Barros, uma das referências nacionais em doenças infectocontagiosas, a lentidão na tomada de decisões visando esses povos é preocupante e grave. O pesquisador afirma: “Os indígenas são o povo mais sensível a qualquer doença viral. A gripe comum os destrói completamente”. E completa: “Imagine numa pandemia por vírus respiratório novo e que o mundo ainda não conhece as consequências. É uma situação altamente temerária. Uma morte anunciada”.

O antropólogo e professor Gersem dos Santos Luciano, Gersem Baniwa, observa que, à exceção do Ministério da Saúde, é dada pouca importância por parte do Governo Federal aos indígenas. “As recomendações específicas, de fato, não são prioridade agora, até mesmo pela política da Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena) que deveria cuidar disso, mas a nova gestão é muito fria, puramente técnica”.

Gersem Baniwa que é um dos fundadores do Fórum de Educação Escolar e Saúde Indígena (Foreeia-AM), aponta o caráter das relações estabelecida entre o governo federal e os povos indígenas como expressão da falta de prioridade na atenção, prevenção e cuidados com os indígenas. “Na pauta do mundo, as especificidades não entram. A preocupação maior é com o cenário mundial, nacional e regional, com forte viés econômico. As populações indígenas continuam invisibilizadas”

Iniciativas próprias

Organizações indígenas e indigenistas estão tentando assegurar o repasse de informações aos indígenas sobre o novo vírus e indicar medidas de prevenção, do socorro médico. O sociólogo e mestre em Processos Socioculturais na Amazônia, Silvio Cavuscens, coordenador-geral da Associação Serviço e Cooperação com o Povo Yanomai (Secoya), cita o primeiro podcast – do “Copiô, Parente” - feito para os povos da floresta, gravado no dia 12 e transmitido ao vivo nas redes sociais do Instituto Socioambiental (ISA) com foco no novo coronavírus. Participaram do programa Winti Kisêdje, O-E Kayapó, cacique Ramon Tupinambá e Márcio Santilli, fundador do ISA. O médico sanitarista Douglas Rodrigues, da Unifesp, e Sofia Mendonça, diretora do Projeto Xingu-extensão universitária da Unifesp, forneceram dicas de prevenção nas aldeias.

Os povos indígenas e o combate ao coronavírus é tema fora da pauta da grande mídia. É um sintoma revelado, mais uma vez, da doença maior que nos assola. Um registro, o site Amazônia Real no dia 15 divulgou matéria informando como os indígenas estão atuando por conta própria para combater o covid-19.   


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