Sábado, 04 de Julho de 2020

Governo asfalta o caminho

No duelo aberto entre o presidente e o ex-ministro sobram perguntas cujas respostas estão difíceis de serem dadas à nação diante da composição ampliada ora em andamento entre Executivo e Legislativo.


Há seis dias, o então superministro Sérgio Moro, da Justiça e Segurança Pública, forçado à demissão do Governo Bolsonaro, expôs ao mundo outras facetas da intimidade do poder na atual gestão presidencial.

No duelo aberto entre o presidente e o ex-ministro Moro, sobram perguntas cujas respostas estão difíceis de serem dadas à nação diante da composição ampliada ora em andamento entre Executivo e Legislativo. Acalmar e agasalhar os conflitos, seja qual for o preço a ser cobrado, é a ordem.

As mudanças no Ministério da Justiça e no comando da Polícia Federal estão consumadas.  O que tais alterações podem significar à sociedade? A sensação é que não foram os problemas da população brasileira que levaram ao troca-troca na equipe governamental e sim a necessidade de construir arranjos para garantir a realização de um outro jogo e outros resultados desejados no âmbito privado e familiar enquanto expressão da administração pública do País.

As pesquisas de opinião pública, como as que estão sendo feitas pelo Instituto Datafolha, apresentam situação favorável ao presidente da República. A militância virtual do grupo pró-Bolsonaro permanece elevada mesmo sob a suspeita de ser feita por robôs; os que estão nas ruas são os apoiadores do presidente. Ignoram regras de distanciamento, como faz o ídolo, e propõem com naturalidade o fechamento do Congresso Nacional, do Supremo Tribunal Federal (STF). Cometem crimes. Quem irá condená-los por tais atos?

Uma reforma ministerial não anunciada está sendo feita sem que esse nome tenha sido pronunciado. As demissões de ministros (até a de Sérgio Moro foram seis) representam 27,2% de toda a equipe do início do governo; se somados os remanejamentos feito até à última semana, as mudanças internas alcançam 40,9% do total. Que cara tem o governo Bolsonaro para além do que parte da população chama de mito? Para o empresariado? Para as juventudes? Para os gestores de congregações religiosas cada vez mais partícipes do fatiado do bolo do poder?

A imagem do homem não corrupto ainda aparece forte no entendimento mais geral sobre Jair Bolsonaro. Os episódios envolvendo os filhos do presidente são tratados pelo viés da banalização e dos memes numa profusão de compartilhamento com o recadinho “para se divertir um pouco”. Os filhos do homem estão em guerra de verdade. Quem criar obstáculo é atropelado e empurrado para fora.

Bolsonaro ri diante da realidade. Faz bolinha dos 29 pedidos de impeachment  (contabilizados até o dia 24 deste mês) e chuta. Acerta o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso que reapareceu para defender o impedimento do presidente. O Congresso, nesta temporada, está amarrado demais. A presidência da Câmara dos Deputados avisa ter outra tarefa, “uma pandemia para se preocupar”.

De onde virá a fala capaz de mobilizar os diferentes segmentos da população para um posicionamento mais crítico a forma de governar do presidente do Brasil? Quem detém a fórmula? A narrativa bolsonarista segue. As outras narrativas (inclusive a de Moro) se digladiam e fragmentadas vão se derretendo no asfalto quente da direita arcaica que parece já saber aonde chegar. 


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