Quinta-feira, 02 de Julho de 2020

Ficção na tela, realidade da fila

Entre o desfile das peças publicitárias na mídia e as filas humanas em frente aos prédios das agências existe o abismo real.


É desrespeitosa a propaganda ora veiculada pela Caixa Econômica Federal em nível nacional. Entre o desfile das peças publicitárias na mídia e as filas humanas em frente aos prédios das agências existe o abismo real.

As pessoas aglomeradas sem proteção do sol ou da chuva ignoram a razão de manter o distanciamento social. Acossadas pelas contas, a falta de alimentos e de medicamentos recusam a quarentena. Segura e atraente a publicidade da Caixa parece ter sido feita para outro modelo de país, onde basta apertar um teclado do aparelho celular funcionar e, pronto, os problemas acabaram.

Relatos diários dos que estão nas filas expõem a via crucis para conseguir uma resposta positiva nas buscas virtuais ao serviço do banco. A voz, cada vez mais robotizada, informa inabalável que tente mais tarde ou que o serviço não está disponível. Por vezes, remete o usuário a viajar por corredores infindáveis da feira de oferta de serviços nessa travessia inglória. É desumano.

A voz do número: O estudo Índice Inclusivo da Internet (The Inclusive Internet index 2019, com dados atualizados para este ano), elaborado pela revista britânica The Economist em cem países situa o Brasil na 34ª posição. E nos deixa uma pista sobre a importância de pautar a leitura crítica em torno de questões como acessibilidade e comunicabilidade virtual.

São 46 milhões de brasileiros fora da rede (25,3% da população nacional). A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua – Tecnologia de Informação e Comunicação (PNAD-Continua –TIC), divulgada dia 29 de abril pelo IBGE, apresenta uma radiografia onde os indicadores, se tratados com responsabilidade técnica pela administração pública do país, podem ser manejados em programas governamentais que de fato alterem a realidade de exclusão.

Dos 25.3% da população brasileira sem acesso à internet, 41.6% são de pessoas que não sabem acessar os recursos da rede. A Região Norte apresenta, na pesquisa do IBGE, o porcentual mais elevado (13.8%) do Brasil no item ‘serviço da internet não disponível’. A voz do número responde a algumas das interrogações do porquê das filas impróprias em frente as agências da Caixa. Quem é que escuta essa voz?

A falta de sintonia governamental para resolver problemas sérios da população é imensa. Há progresso na rede de intrigas, no achatamento da vida, na impulsão do clima de violência e na banalização da vida. Talvez, por essa motivação temporal, a publicidade dos triunfos do banco público Caixa Econômica esteja tão distante da realidade e de mãos dadas com o enredo ficcional e tragicômico que o Brasil vive.

Os milhões de homens e mulheres que correm distâncias à remo em canoas, no arrocho dentro dos ônibus ou a pé em busca do auxílio emergencial, são figuras sem voz, imagens desfocadas. Não contam. A própria Caixa em processo de esvaziamento funcional – enxugada – perde a função social que está incorporada na atuação da empresa, criada em 1861, e tem por slogan ‘a vida pede mais que um banco’. Ou a propaganda do banco queira dizer que slogans não fazem mais sentido.    


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