Terça-feira, 14 de Julho de 2020

Carta para Egydio Schwade

O discurso oficial disseminado estrategicamente no Brasil pós-golpe de 64 trabalhou palavras-chave como defesa da democracia, soberania, liberdade para justificar a ruptura constitucional. A tortura estava legitimada.


Hoje o golpe faz 56 anos. É uma história recente. Muitas páginas precisam ser escritas e reescritas para conhecermos um pouco mais e saber da razão de não o esquecermos. Do golpe vieram 21 anos de ditadura, uma das mais longas e sangrentas experiências ditatoriais na América Latina.

Quantos foram torturados, sequelados, assassinados? É a outra busca a nos questionar, a reivindicar respostas no presente. Talvez não consigamos chegar a números exatos diante da estrutura e da técnica de tortura implementadas no Brasil nos anos de 1960 e 1970 sob o financiamento farto dos governos norte-americanos. Nosso dever é desenterrar os fragmentos dessa história e é questão do direito à memória e à verdade.

Na Amazônia há um déficit de respostas. Quantos indígenas foram dizimados pelos governos militares e grupos de apoiadores daquele sistema? Somente do povo waimiri-atroari foram aproximadamente 2 mil mortes (e esta tem sido uma das lutas travadas por você, Egydio, em nome da verdade e da justiça); e quais informações temos sobre os demais povos amazônicos? Os pescadores, os pequenos agricultores, as mulheres trabalhadoras nas atividades da floresta?

São muitas perguntas em 35 anos de lutas pela redemocratização, um percurso fortemente golpeado. O documentário “O Dia Que Durou 21 Anos”, dirigido e roteirizado por Camilo Tavares, produção de Karla Ladeia, lançado em 2013, oferece subsídios à leitura da realidade presente.

Nos anos de 1960, as reformas de base, a redistribuição da terra concentrada nas mãos de latifundiários, alimentavam as lutas populares. A intervenção norte-americana produziu o ‘plano de contingência’ para viabilizar a implantação do regime militar no Brasil. O historiador Carlos Fico, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, um dos entrevistados neste documentário, mostra como o roteiro de 1963 se completou em 1964. Trata-se do “A Contingency Plan for Brazil” (um plano de contingência para o Brasil), escrito por Lincoln Gordon, então embaixador dos EUA no país, e por Benjamin H. Head, então secretário-executivo do Departamento de Estado Norte-Americano (Folha de São Paulo, julho de 2007).

Nos tempos ditatoriais, a lógica era “o que é bom para os EUA é bom para o Brasil”, como declarou o embaixador brasileiro general Juracy Magalhães à época. Assim, a ‘diplomacia do canhão’ norte-americana avançou na terra brasileira sob aplausos de mulheres e homens na Marcha da Família com Deus pela Liberdade, em 1964 ao mesmo tempo em que a ‘operação limpeza’ se espalhava cassando mandatos parlamentares, perseguindo civis e militares, torturando, matando.

O discurso oficial disseminado estrategicamente trabalhou palavras-chave como defesa da democracia, soberania, liberdade para justificar a ruptura constitucional. A tortura estava legitimada. Elevadas somas em dinheiro foram colocadas à disposição dos governos ditatoriais do Brasil pelo governo norte-americano. É o que os historiadores chamam de “o silêncio dourado” dos EUA.

No Brasil de 2020, nossa tarefa é prestar atenção nas palavras-chave dos ditadores deste século e do papel do atual governo dos EUA nos planos de contingência impostos na América Latina e em outras regiões do mundo. A revisitação à memória nos ajuda a situar o presente e revigorar a utopia, alimento das nossas lutas por um Brasil capaz de romper com os pilares de sustentação da desigualdade, da concentração de renda, do desrespeito aos povos e do culto ao racismo e à violência. Querido Egydio, sua luta nos convoca. Você, com esse jeito menino de 85 anos, tempera nosso caminhar.


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