Terça-feira, 14 de Julho de 2020

Ascensão de um discurso fantasmagórico

Descobri o poço do medo, o mar da mediocridade e a avenida por onde passeia a vaidade de homens e mulheres daqui. Querem ser, a todo custo, brancos e de olhos azuis...


Fantasmas e demônios estão a solta. O vírus pandêmico escancara a intimidade, brutalidade e fragilidade humanas, expõe a muralha do poder no mundo e perfila os seguidores entorpecidos dos capitães de areia para um salvamento que não salva, deixando os não seguidores em pânico e na agonia. Ele garante, aos seus, salvação a qualquer custo. Afinal, se outros irão morrer porque desviar o curso de consolidação do autoritarismo de resultado? Que morram!

Não importa a dor do outro. Não tem valor algum o luto dos que perderam e dos que estão perdendo familiares e amigos para o vírus; nem a angústia de não poder acompanhar e enterrar seus mortos. A dor só vale ser sentida quando é a dor própria. Aglomerações festejadas e carreatas da vida mórbida se espalham sob o comando de soldadinhos que nunca souberam o significado de ser soldado e de ser Pátria.

Eles organizam, como se estivessem brincando, os games do ódio, passeatas infames, marionetes. Olham do alto de suas proteções a gente que os aplaude e os incentivam a continuar: Fechem o Congresso Nacional! Fecham o STF! Queimem a Amazônia! Matem os indígenas! Acabem com os quilombolas! Destruam as mulheres! E assim estariam aniquiladas as lutas impedidoras da vitória do fascismo.

“Conto com vocês”, soldadinhos. E vocês, ah, vocês, o que será feito de vocês? Por enquanto, marchem em seus carrões, empalem os que se fizerem obstáculo e dancem a dança da morte e da tirania com imagens de um Deus e de uma Nossa Senhora. São cristãos, como eu. Nosso reino é o da maldade.

Como sou feliz. Vejam os meus dentes, o meu sorriso abutrino na celebração da crueldade. AI-5Já! Gritem! Gritem! Gritem! Eu encurralo o outro Brasil. No dia seguinte mando calar a boca de quem me questionar e permaneço ignorando o dever de respeitar a Constituição. Que idiotice. Quem irá me obrigar? Não, não é culpa minha, não controlo a vontade do povo, dos meus soldadinhos. Apenas estou com eles e espalho o vírus organizador da minha conquista de poder.

Descobri o poço do medo, o mar da mediocridade e a avenida por onde passeia a vaidade de homens e mulheres daqui. Querem ser, a todo custo, brancos e de olhos azuis, milicianear a segurança pública e ter o green card estadunidense, só vale se for esse, ainda que o sejam como párias.

Aplausos! O Trump nos viu. Viram a foto? Agora, seguidores, a gente é importante. Acreditem em mim. Enquanto isso:  respiradores artificiais primeiro para eles.


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