Quinta-feira, 01 de Outubro de 2020

As Águias do mercado e o salvamento do Gavião Real

A cada ato de desmatamento morrem humanos e não-humanos, são destruídos ecossistemas fundamentais à vida. Cientistas debruçados por décadas nesse tema emitem alertas, pedem socorro...


Há três dias seguidos, a mídia destaca a voracidade do desmatamento na Amazônia. Os dados a subsidiar a notícia têm uma fonte principal, o Programa Deter-B do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), órgão do governo federal. Quando são comparados os quatros primeiros meses deste ano com igual período de 2019, o monitoramento do Deter-B apresenta 55% de desflorestamento na região. No mês de abril o índice de desmatamento representa aumento de 64% quando comparado ao mesmo mês do ano passado.

São mais de 5 mil quilômetros quadrados de destruição da floresta em território amazônico. Ao mundo, a região está imersa na bolsa de apostas e tem sido utilizada nos mais diversos arranjos econômico-políticos-sociais das batalhas travadas nas esferas de disputa pelo poder.

Internamente, o governo escancara o que quer da Amazônia – acelerar o processo de entrega ampla da região a megaprojetos de exploração – o desenvolvimento e a integração dos povos indígenas à civilização. É o discurso feito desde a metade do século 20, para indicar um marco mais recente das investidas de variadas concepções feitas sobre a região. O aparelhamento de ministérios, departamentos, institutos e divisões ora realizado pelo governo retoma o uso de mordaças dos velhos tempos e tem implicação direta na presente estatística a respeito da velocidade de desmate da região.  

A questão: no que a derrubada de árvores nos afeta? Que grau de importância o desmatamento na Amazônia tem para os brasileiros, os amazônidas, os amazonenses? Na lista das importâncias individuais e coletivas, qual é o lugar dado às lutas da Amazônia para assegurar outro modelo de coexistência?

Os povos indígenas denunciam mundialmente que essa é a versão atualizada da política genocida de um governo. Indígenas são ameaçados, torturados, encurralados, assassinados. A cada ato de desmatamento morrem humanos e não-humanos, são destruídos ecossistemas fundamentais à vida. Cientistas debruçados por décadas nesse tema emitem alertas, pedem socorro por posicionamentos mais coletivos com força para barrar o projeto de desenvolvimento destruidor em implantação pelo governo.

O OLHO DA ÁGUIA

A saga do capitalismo é cheia de paradoxos (Harvey, 2010) e pensar sobre os contraditórios pode vir a ser uma janela para vislumbrar as paisagens e o nosso lugar de sujeito nelas. Apoiar, reagir, resistir, oferecer outros caminhos. “{...} Se quisermos mudar o mundo coletivamente em uma configuração mais racional e humana por meio de intervenções conscientes, temos primeiro de compreender (muito melhor do que compreendemos hoje) o que estamos fazendo com o mundo e quais são as consequências disso”.

É hora de retirar da águia-ave as vestimentas de dominação que lhe foi imposta. Por aqui, coletores de castanha-da-Amazônia, proprietários de terras e operadores de ecoturismo tecem meios para, juntos, salvar “a maior águia do mundo na Amazônia”, o gavião-real, relata Rachel Nuwer, em artigo sobre “um programa inovador” publicado na Nathional Geographic Brasil, em 22 de abril deste ano. David Harvey lembra: “{..} É imperativo que comecemos a refletir sobre as estratégias políticas para e confrontarem os excessos do capital no aqui e no agora e encontremos aberturas para a construção de alternativas econômico-politicas viáveis”.


Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.