Quarta-feira, 28 de Outubro de 2020

A estratégia de desqualificar servidores

A gestão governamental, sem esforço, assiste aos ataques aos servidores públicos enquanto avança no modelo de privatização


Dois dias após o Brasil ultrapassar a marca de 100 mil mortos pela Covid-19 – no sábado, 8 de agosto – as composições de interesses entre Governo Federal e amplos setores da mídia começam a ganhar maior visibilidade. O foco nessa primeira onda de acertos discursivos são os servidores públicos federais e as reformas engatadas pelo ministro da Economia, Paulo Guedes.

O enfoque é o da desqualificação dos trabalhadores públicos federais em combinação com outra noção, a necessidade das reformas. Pesquisas, assinadas por diferentes institutos, alimentam a ideia de servidores como fardo cujo custo elevado para mantê-lo precisa ser combatido e eliminado. É o que está sendo feito.

A constituição de uma ideia/imagem e desta em um sistema, como ensina o Prof. Ernesto Renan Freitas Pinto, “impõe um pensamento predominante, a partir do qual se passa a sentir, a agir e a perceber o mundo das coisas e dos homens”. Em sua “Viagem das Ideias”, o pesquisador debate o processo de formação do pensamento que construiu a Amazônia e como este se tornou dominante, realimentado e realimentando-se até hoje por inúmeros engendramentos.

A ideia circulante do servidor público brasileiro é manipulada de acordo com os interesses dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário e destes com os relatos midiáticos. Ao final, a soma revela uma condição denegrida que passa a ocupar o imaginário da sociedade e, por ela, esse servidor é rechaçado. A gestão governamental, sem esforço, assiste aos ataques enquanto avança no modelo de privatização e ou da venda a baixo preço de bens públicos.

Da mesma maneira que há apoio, inclusive financeiro, ao fortalecimento da ideia de um país sem Legislativo e sem o Supremo Tribunal Federal (STF) porque “parlamentares e ministros são corruptos”, é retomada a mobilização de instâncias governamentais e grupos de apoio para desenvolver a tarefa de desmerecer o servidor público.

Situações produzidas pela própria estrutura governamental em nível federal, estadual e municipal colocam o servidor ao linchamento diante da não operacionalidade e eficiência deste ou daquele serviço público como se dele fosse a responsabilidade isolada de garanti-las.

Há problemas de condutas inadequadas nessa área, como em todas as outras nos espaços públicos, privados, sagrados e profanos. Os desvios são fáceis de serem averiguados e os responsáveis acionados para responder pelos erros.

É uma minoria que assim age, a maioria desses trabalhadores honra a função. A questão é a vontade política do governante em generalizar com meio de promover ameaças, destituição de direitos conquistados e desmantelamento de carreiras profissionais no âmbito público.

O impacto desse movimento desagregador e denegridor não atinge isoladamente aos servidores públicos, afeta a funcionalidade das instituições e dos departamentos. A privatização e a terceirização, defendidas nesses arranjos reformistas à espera de aprovação, tendem a gerar lucros aos grupos milionários desses setores e deixam aos usuários preços e condições de acesso mais elevados, mais complicados.

Os que podem se ajustar ao que pede os pré-requisitos terão demandas respondidas. A maioria dos brasileiros, não. Essa será parte da multidão sem direitos que faz do Brasil atual um campeão da concentração de renda e da desigualdade econômico-social. Esse sistema é que precisa ser desaprovado e desfeito, é por meio dele que as vidas se perdem, a equidade é ignorada e as violências são naturalizadas.

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