Sexta-feira, 30 de Outubro de 2020

A alma da palavra

Somos parte em parte dos milhões de mulheres com jornada quintuplicada no ambiente invisível das unidades de moradia


Há cinco dias, durante exercício de diálogo, expusemos percepções a respeito do tema “mulheres e pandemia Covid-19”. Éramos em oito, com formação acadêmica e ideológica diferentes, a maioria do campo da comunicação e do jornalismo. O saldo da atividade está sendo processado no ritmo de cada um e de cada uma, em sintonia com os valores cultivados por esse grupo aleatório.

É muito quando as palavras importam. Não para agradar a plateia, do que se ocupa fazer o discurso político eleitoral, e sim produzir inquietações. Deixamos a reunião online inquietad@s. Por duas horas e 30 minutos apresentamos nossas compreensões e nossas próprias experiências nesse período de quarentena.

Sim, somos parte em parte dos milhões de mulheres com jornada quintuplicada no ambiente invisível das unidades de moradia. Nela, o relógio do expediente de trabalho na organização desaparece e o tempo da jornada é esticado do sol à lua em meio a uma agenda carregada de demandas a qualquer momento e das tarefas domésticas agora misturadas aquilo que se constituiu como ideia de trabalho.  

Essa é uma condição de violência física e simbólica. Neste caso, mulheres adultas, classe média, remuneradas mensalmente, realizadas profissional. A saúde mental adoece mais no estilo home office de viver.

Pensemos nas mulheres com subsalários, chefes de famílias numerosas, subempregadas, desempregadas nesse cenário. Pensemos nas mulheres de todas as classes sociais vítimas de violência doméstica no período pandêmico onde a convivência prolongada se tornou obrigatória e formas de aprisionamentos e de intolerância passaram a ser praticadas cotidianamente.

Pensemos nas mulheres espancadas, brutalmente violadas e assassinadas entre gritos abafados no interior da casa e ignorados por vizinhos (“é problema deles”; “não temos nada a ver com isso”). Pensemos no que e como podemos mudar atitudes de alheiamento ensinado em casa e na escola que atua para justificar a violência e criminalizar a mulher vitimizada.

Não é conversa isolada. A luta das mulheres em todo o mundo e em diferentes tempos da história da humanidade está diretamente vinculada às lutas das maiores da gente sem direitos. Traduz, com vigor, as batalhas travadas contra o capitalismo e o patriarcado. Um necessita do outro para coexistirem e se completarem com grandes sistemas de estruturação e disseminação do modelo de vida como vivemos hoje: concentração de riqueza em poucos grupos e indivíduos, explosão da pobreza e da miséria, naturalização da lógica dos muros que separam brancos e ricos dos demais humanos; corrupção; exploração de pessoas e de nações; destruição das florestas e dos rios; negação sistemática dos direitos dos povos nativos, do povo preto, do povo quilombola; privatização acelerada dos bens públicos.

Desse encontro brota uma peleja interior: onde anda a alma da nossa palavra? Pensemos sobre o nosso jeito de ser no mundo, nas escolhas feitas, na qualidade do apoio que oferecemos e das alianças construídas. A que e a quem elas têm servido?


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