Quarta-feira, 28 de Outubro de 2020

Vulnerabilidade e Literatura

No artigo da semana, a escritora Myriam Scotti fala sobre como os livros, inclusive os infantis, são uma oportunidade imperdível para se experimentar e entender o desconhecido


05/07/2020 às 12:06

Por Myriam Scotti*

Por volta dos quatro anos de idade, ganhei de presente dos meus pais, disquinhos coloridos repleto de contos infantis, para serem escutados na minha vitrola vermelha da turma da Mônica. Quem nasceu nos anos 80, talvez se lembre dela a vitrola. Costumava passar as manhãs hipnotizada pelas histórias que instigavam a minha imaginação, onde podia mergulhar na fantasia junto com as personagens. Entre os tantos contos narrados, “Alice no País das Maravilhas” era o meu preferido e perdi a conta de quantas vezes o escutei e depois o li. Aliás, aprender a ler era algo tão urgente, que acabei me adiantando no processo de alfabetização, a fim de logo poder desfrutar da leitura dos muitos livros que sempre adornaram as prateleiras de um cômodo da casa. “Marcelo, Marmelo, Martelo”, bem como toda a obra de Ruth Rocha, foi marcante durante minha infância. Aos dez anos, descobri os contos dos irmãos Grimm e me dei conta de que nem todas as histórias precisam de finais felizes, como acontece com as do mundo Disney. De modo que a partir disso, passei a encarar com naturalidade os livros que se aproximavam do real e retiravam o véu romantizado do “felizes para sempre”. 


Em seguida, veio a coleção Vagalume, recheada de aventuras; “A bolsa amarela”, de Lygia Bojunga; “O menino do dedo verde”, de Maurice Druon; “O pequeno príncipe”, de Antoine de Saint-Exupéry; “A marca de uma lágrima” e quase todos do escritor Pedro Bandeira, além de tantos outros que me tiravam da frente da televisão e me entretinham por horas esquecidas. Na adolescência, conheci José de Alencar, Graciliano Ramos, Mário de Andrade, Machado de Assis, Jorge Amado, Clarice Lispector etc. Ler era tão natural, que fazia parte da minha rotina, como escovar os dentes, ir à escola ou sentar para fazer as refeições. Sem falar na poesia, que de tanto me encantar, acabou por me tornar além de leitora voraz, também poeta. 
 No presente, permeada por tantas distrações, a maioria das crianças não cultiva o mesmo interesse pela leitura. Ver um pequeno ou um jovem com algum livro aberto e os olhos vidrados na história é uma cena até comovente. Nas minhas visitas às escolas, onde realizo contações e converso sobre a importância da leitura, percebo que as bibliotecas são bastante frequentadas pelos alunos do ensino infantil e fundamental, mas, à medida que crescem e começam a ter acesso à tecnologia, muitos leitores ficam pelo caminho. Além das distrações, quando voltam para casa, dificilmente as crianças e os jovens veem seus pais com um livro na mão. Se a leitura não faz parte da rotina dos adultos, como exigir que filhos e filhas o façam? Então, para que essa realidade se modifique, deixo hoje minha dica: criem um momento para a leitura em família, a fim de incutir o hábito delicioso de ler uma história em todos. Quando a última página se fechar, conversem sobre o que leram. Não há melhor maneira de tratar assuntos, por vezes indigestos, do que por meio de um livro. 
É a leitura que traz a conversa à mesa sobre diversidade, preconceitos, direitos e deveres, empatia, honestidade, solidão, tristeza, violência e tantos assuntos que tendemos a afastar dos diálogos. Vez em quando é preciso experimentar o lugar do outro para compreendermos sua fala, suas queixas, seu mundo. E se em nosso dia a dia essa possibilidade não surge ou a desviamos para continuarmos em nossa bolha confortável, a literatura pode ser um caminho. Não raro, em minhas redes sociais, alguém me pede sugestões de leitura. E, não raro, enfatiza que seja leve. E aí, me questiono: se for para um livro não nos trazer reflexões, não incomodar, não nos provocar perguntas, não nos fazer repensar o modo como estamos vivendo, então para que ler?
 Os livros, inclusive os infantis, são uma oportunidade imperdível para se experimentar e entender o desconhecido. É possível ir além da simples distração e viajarmos para muitos lugares, vivenciarmos guerras, conflitos, questões familiares etc.
 Ler é, acima de tudo, se permitir vulnerável. Num mundo em que somos atacados pelos mais diversos tipos de violência, creio que muitos temem a vulnerabilidade. Afinal, permitir-se ser vulnerável é enfrentar perdas, mas de que outro modo criaremos vínculo se não nos expusermos? Empatia é vínculo. E se não treinamos a empatia desde a mais tenra idade, começando de forma distante, como acontece com a leitura, dificilmente nos jogaremos na vida real, onde o impacto não é apenas ficar dias ruminando determinada história, é ver sua vida sofrer uma reviravolta. Como nem sempre estamos dispostos a tamanha coragem, comecemos pelos bons livros. Aceitemos ser provocados e incomodados, de modo a lermos sobre uma realidade diferente da nossa, que nos tire do lugar aprazível que geralmente ocupamos. Vamos mergulhar com nossos filhos e filhas nas histórias que podem nos tornar melhores para o mundo. 
Até mês que vem!
Dica de mergulho profundo para toda a família: “A parte que falta”, de Shel Silverstein. 

 

*Myriam Scotti  -Poeta  e escritora amazonense, nasceu em Manaus. É formada em em direito pela Universidade Federal do Amazonas. Iniciou na literatura infantil após o nascimento do primeiro filho e, em 2018, lançou “A língua que enlaça também fere”, reunião de seus poemas, pela editora paulistana Patuá e este ano “Mulheres Chovem”, pela Penalux. Além de livros impressos, a autora publicou diversos e-books pela plataforma Amazon.

 


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