Quarta-feira, 05 de Agosto de 2020

Um brazuca entre os grandes?

A trajetória de Cláudio Roditi grande personagem da história da música brasileira e do jazz


13/06/2020 às 23:33

Por Abner Viana*

No último 28 de maio, o trompetista, arranjador e compositor brasileiro Cláudio Roditi estaria completando mais um ano de vida. Roditi nasceu no Rio de Janeiro em 1946 e nos deixou em 18 de Janeiro deste ano, em decorrência de um câncer. Passou uma parte de sua vida em Varginha (MG) e cultivou uma extensa discografia solo. Acho justo e memorável falar um pouco da carreira desse grande personagem da história da música brasileira e do jazz, bem como sua importância, suas contribuições e indagar: “Era só mais um ‘brazuca’ entre os grandes ou, de fato, era um herói em plena efervescência criativa do samba jazz nos anos 60?”

 Vamos lá! Vejam só a proeza do jovem Roditi, que com apenas 18 anos de idade já era finalista do International Jazz Competition (em Viena/Áustria). Esbanjava tanto talento que, no ano seguinte, mudou-se para a Cidade do México, onde teve participação ativa junto à cena musical com outros grandes músicos locais. Suas frases musicais lembram muito uma outra lenda do jazz, o trompetista americano Lee Morgan (1938-1972), ao qual se dedicava por infindáveis horas transcrevendo solos de seus vinis, como o próprio um dia me contou, no camarim do Teatro Amazonas,  quando tocamos juntos pela primeira vez em Manaus e conversamos a respeito de suas influências musicais.

Mas, voltando ao principal gênero, o Samba Jazz, que o tornou embaixador do mesmo pelo mundo afora - essa década de ’60 “tava que tava, hein?”- Roditi fez parte do fabuloso grupo do multi-instrumentista Ed Lincoln (1932-2012), que também era compositor e arranjador, além de produtor musical. E, já no início dos anos 70, partiu para Boston (EUA), a fim de estudar na famosa Berklee College of Music. Daí então onde tudo começou acontecer internacionalmente. Em 1976, Roditi radicava-se em Nova York, onde conheceu uma cena de músicos de altíssimo nível, geralmente ligados ao jazz de vanguarda da época ou ao latin jazz, dentre os quais com quem tocou e gravou estavam: Herbie Mann (1930-2003), flautista; Dom Um Romão (1925-2005), baterista; Bob Mover (1952), saxofonista; Arturo Sandoval (1949), trompetista; Charlie Rouse (1924-1988), saxofonista; e o virtuoso saxofonista e clarinetista Paquito D'Rivera (1948). 

Entre grande parte desse elenco musical havia músicos que estavam “conectadíssimos” com a música latina como mencionei (provindos principalmente de Cuba e Porto Rico), criando o que posteriormente viria a ser o conhecido “latin jazz”, de fato, suas raízes, não? Praticamente em um período em que Nova York era invadida, por assim dizer, de músicos latinos dos mais diversos, Roditi obteve muita influência do gênero, bem como, também os influenciava nesse contexto com a nossa música brasileira, ou seja, o nosso trompetista levou o Brasil para o mundo.

 Nesse período, o brasileiro também despertava a atenção de uma outra grande lenda do jazz, o trompetista Dizzy Gillespie (1917-1993). Logo foi convidado por Dizzy para integrar a United Nations Orchestra, na qual foi solista entre os anos de 1987 até 1992, quando gravou o disco Live at the Royal Festival Hall (vencedor do Grammy de melhor álbum de jazz de grande conjunto em 1992).

Em sua discografia solo, para quem quiser consultar, aqui vão as dicas:  Red On Red (1984); Claudio! (1985); Gemini Man (1988); Slow Fire (1989); Two Of Swords (1990); Milestones (1990); Today is Tomorrow (1991); Jazz Turns Samba (1993); Daywaves (1993); Free Wheelin' (1994); Samba-Manhattan Style (1995); Claudio, Rio & Friends (1996); Metropole Orchestra (1996); Double Standards (1997); Mind Games Live (1998); Three For One (2002); Light in the Dark (2004); Relections (2005); Smile-Roditi; Ignatzek; Rassinf (2006); Brasilliance x 4 (2007); Beyond Question (2008); Dedication (2010); Impressions (2010); Simpatico (2010); Bons Amigos (2011).

E aí, ficaram convencidos de que o homem não era só mais um “brazuca na gringa?”. Roditi fez história e deixou um legado musical a ser seguido até hoje. Por isso, é um herói dentro e fora dos palcos, pois, sua pessoa refletia muito bem na sua música. Era sincero. Confiram a discografia citada. Tenho certeza de que não haverá arrependimentos!!!

 

Abner Viana - Natural de Manaus- Am. É Músico (Saxofonista/ Clarinetista) e pesquisador. Possui Mestrado em Música pela UEA. Já trabalhou com diversos artistas nacionais e internacionais tanto no Brasil, Europa, bem como na América do Sul.


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