Terça-feira, 20 de Outubro de 2020

Mulheres na Literatura

No artigo desta semana, a escritora Myriam Scotti fala sobre os desafios enfrentados pela mulheres na escrita, ao longo da história


02/08/2020 às 11:28

Por Myriam Scotti*

Em 2014, ao decidir abraçar racionalmente a escrita, coisa que meu coração já se antecipara, não imaginava as dificuldades que enfrentaria. Tão logo comecei, constatei que não basta a vontade de escrever. São também necessários dedicação, tempo, espaço e apoio. Como qualquer outra profissão, escrever leva boas horas do nosso dia, afinal lapidar um texto é lapidar uma pedra bruta: precisa-se de paciência e de entrega para se chegar ao resultado ideal. Durante os primeiros anos desse novo ofício, trabalhei sem espaço definido, escrevia onde fosse possível, alternando de sala em sala de um prédio, o qual nada tinha a ver com a escrita, de modo que digitava os textos escutando o barulho de máquinas das mais diversas, conversas entre clientes e funcionários, portas se abrindo e pessoas me pedindo desculpas por estarem interrompendo, mais uma vez, aquela curta manhã dedicada ao trabalho, antes de eu sair para buscar as crianças na escola. Hoje, mesmo dona de um espacinho só meu, ainda enfrento interrupções a todo instante. No fim das contas, trabalhar em casa, sendo mãe de dois, é desafiador. No entanto, apesar dos entraves diários, tornar-me escritora e poeta tratou-se de uma escolha. Mas, nem sempre foi assim… 
 “Uma mulher precisa ter dinheiro e um teto todo seu, um espaço próprio, se quiser escrever ficção.” A frase pertence à britânica Virgínia Woolf, em seu livro “Um teto todo seu”, de 1929. Neste ensaio, a pergunta “quais as condições necessárias para a criação de obras de arte?” permeia as páginas, remontando historicamente os motivos pelos quais demoramos tanto para ler obras escritas por mulheres. “Teria sido impossível absoluta e inteiramente, para qualquer mulher ter escrito as peças de Shakespeare na época de Shakespeare”, conclui a autora muito antes do final do livro. A primeira razão é que por séculos as mulheres foram impedidas de frequentar a escola. O conhecimento, como instrumento de poder masculino, mantinha as mulheres confinadas em seus silêncios e em seus afazeres domésticos. Um controle (pouco) sutil para impedir qualquer discurso insurgente contra a perpetuação da sociedade patriarcal, machista e sexista dominante. Além de colocadas à margem da educação, por muito tempo também não pudemos sequer desejar a independência. O dinheiro, bem como a propriedade, pertenciam aos homens. Neste cenário, como escrever? Como criar? Não havia teto, não havia fonte de renda, muito menos espaço próprio para a escrita. E, depois de um dia inteiro atendendo às (infinitas) demandas da casa, do marido e dos inúmeros filhos, quase impossível sobrar tempo ou vontade para se dedicar às artes. As poucas mulheres que conseguiam ter acesso à educação, faziam seus primeiros registros apenas para si mesmas. Diários e poemas soltos eram a única forma possível de se expressar, e, ainda que tivessem talento, somente homens podiam publicar. Não à toa, grandes escritoras do passado fizeram uso de pseudônimos para se verem lançadas, como foi o caso de Jane Austen, das irmãs Bronte, de Mary Shelley e de muitas outras, cujos trabalhos encantam pessoas do mundo inteiro até hoje. Somente no final do século XVIII às mulheres foi permitido escrever e publicar com seus próprios nomes, ainda assim, com restrição. Seus escritos não podiam ir de encontro à moral e aos bons costumes, de modo que a maior parte do que veiculavam se resumia a livros de culinária ou de como manter a casa em ordem, ou ainda de etiquetas sociais.
 Ressalte-se que a dificuldade para escrevermos literatura não se restringia ao velho mundo. No Brasil do século XIX, embora a escrita existisse (somente) para a elite masculina e feminina, o ensino era diferenciado para as mulheres, restringindo-se ao português básico, a noções de aritmética, a aulas de piano, a algum francês e, claro, a bordar. Todavia, indo de encontro ao destino planejado para que continuássemos confinadas em nossos silêncios, algumas brasileiras avançaram o sinal vermelho e se destacaram na escrita bem antes do que supúnhamos. Por meio de uma intensa pesquisa, centenas de escritoras do século XIX tem sido reveladas, resgatando parte da nebulosa história da escrita feminina no Brasil. Mulheres vanguardistas, cujos feitos abriram caminhos para que hoje ocupemos tantos espaços, antes ditos impossíveis. Destaque para: Nísia Floresta, precursora na escrita sobre questões feministas, abolicionistas, indianistas e republicanas; Maria Firmina dos Reis, considerada nossa primeira romancista, com seu livro “Úrsula”, de 1859, pioneiro na crítica antiescravista. Júlia Lopes de Almeida, predecessora da literatura infantil, além de uma das idealizadoras da Academia Brasileira de Letras, embora seu nome tenha sido excluído da primeira lista de imortais, sob o argumento dos fundadores optarem por manter a Academia exclusivamente masculina.   
 A chegada do século XX, enfim, entabulou a possibilidade de grandes escritoras ganharem o merecido reconhecimento, deixando para trás o véu da invisibilidade a que estávamos predestinadas. Nomes como Gertrudes Stein, Virginia Woolf, Hannah Arendt, Simone de Beauvoir e centenas de outros nomes, ganharam o mundo e suas obras permanecem tão atuais e necessárias quanto quando publicadas. No Brasil, felizmente, a literatura escrita por mulheres nunca esteve tão em alta. Desde o início do século passado, nomes como Adélia Prado, Cecília Meirelles, Ana Cristina Cesar, Clarice Lispector, Hilda Hilst, Lygia Fagundes Telles, Lygia Bojunga e muitas outras, passaram a preencher as prateleiras das livrarias físicas e agora também virtuais, antes dominadas por nomes masculinos. Em meio a tantos nomes incríveis, preciso enaltecer um que, a despeito da origem e da pouquíssima escolaridade, deixou uma obra esplêndida, a qual, ouso escrever, deveria se tornar leitura obrigatória: Carolina Maria de Jesus, moradora da favela do Canindé, catadora de papel e que nas horas de desespero e de fome extrema escrevia para não esvaecer das suas misérias, usando a escrita como salvação. A boa literatura está longe de se restringir apenas ao impecável e ao incorrigível. Carolina de Jesus foi singular na sua escrita e, ainda bem, vem sendo cada vez mais lida, imortalizando assim sua passagem por esse mundo. 


 Sem dúvida, a literatura escrita por mulheres vem ganhando cada vez mais espaço no Brasil e no mundo, embora permaneça majoritariamente masculina. Por isso, não raro, somos colocadas como literatura menor ou que interessa somente a outras mulheres, desvalorizando nosso trabalho, conteúdo e diversidade. Não à toa, projetos como #leiamulheres ganhou tanto destaque nos últimos anos, como forma de incentivar a literatura escrita por mulheres. Então, para me despedir, peço aos meus caros leitores que participem deste movimento e leiam mais autoras, porque não existe escritor(a) sem destinatário. Basta seguir a hashtag no Instagram e descobrir as muitas de nós espalhadas mundo afora. Até mês que vem!
 Dicas de mergulho no universo (não exclusivo) feminino: “Quarto de despejo”, de Carolina Maria de Jesus e “Mulheres chovem”, de Myriam Scotti (não podia me deixar de fora…).
 

 

 

 

 

*Myriam Scotti- Nasceu em Manaus, formou-se em direito pela Universidade Federal do Amazonas e exerceu a advocacia até 2010. Das suas vivências com o filho, surgiram crônicas e histórias infantis, momento em que resolveu dedicar-se totalmente à escrita e publicar seus primeiros livros. A poesia chegou por acaso e em 2018 lançou “A língua que enlaça também fere”, reunião de seus poemas, pela editora paulistana Patuá. Além de livros impressos, a autora publicou diversos e-books pela plataforma Amazon.


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