Terça-feira, 27 de Outubro de 2020

E como será quando tudo passar?

João Fernandes faz uma análise sobre o futuro da produção artística e cultural após a pandemia


27/04/2020 às 15:15

Por João Fernandes*

A arte surge do lugar da contemplação, do encontro, do efêmero e da necessidade do outro para existir. Sempre pensamos no futuro, e isso também alimentou a criação artística das mais diversas formas. Algumas criações se tornaram grandes ícones de várias gerações e ainda hoje fascinam nosso imaginário de como será o futuro. Mas será que a produção e os agitadores culturais acreditavam que essas mudanças chegariam tão cedo? Ou melhor, tivemos tempo hábil para nos prepararmos?

O século XXI veio com diversas mudanças, isso já sabíamos, uma vez que questão tecnológica está cada dia mais presente e acessível a todos, porém ainda assim a produção cultural buscava aliar-se e conseguir mais adeptos e captar mais público. Sempre agregando e utilizando das ferramentas sociais para divulgar, aproximar, difundir e proporcionar ainda mais entretenimento. Porém ninguém esperava que de imediato todas as pessoas fossem viver por uma quarentena exclusivamente desses ambientes virtuais.

Os impactos gerados por tudo isso na economia da cultura ainda não foram contabilizados e sabemos que serão gigantes para todos os setores da cultura e para os serviços indiretos que estão agregados a tudo isso.

Uma das mais famosas divas da música pop, em sua recente turnê, não permitiu a utilização de nenhum tipo de tecnologia por parte do público, para que esses pudessem viver intensamente aquele momento, que seria único. Madonna cria uma regra que agora divide opiniões. Após tudo isso, vamos aproveitar mais os momentos com os pares ou fazer com que esses estejam guardados em nossas memórias digitais para futuros surtos de alguma pandemia?

A arte em toda sua história vem se reinventando e agora chegamos a um novo desafio: criar conteúdos digitais que podem diminuir custos, já que esses após criados não têm a manutenção de uma temporada, em que todos os profissionais continuam sendo remunerados. Porém, será que vai ao encontro do que pensou a diva do pop?

E continuará sendo teatro? Teleteatro? Novela? E as artes visuais ficaram contempladas em apenas olharmos virtualmente as obras de grandes artistas, embora muitos museus e galerias já disponibilizem acervos e ferramentas para esse serviço. O cinema, nesse lugar, ganhou o destaque, pois a sua linguagem vai ao encontro do momento atual. É claro que tudo isso precisa passar para que novas produções possam surgir, porém já possuem um grande acervo; e que novas obras falarão sobre esse momento como ficção ou documentário?

São muitas equações que nesse momento foram abertas, inclusive sobre a profissionalização do artista. Mesmo com diversos posts espalhados nas redes sociais com dizeres da necessidade da arte e que ela está salvando nesse período de isolamento, será que a população nos percebe assim? E o poder público como percebe essa categoria que é responsável por 7% do PIB nacional, além de todos os autônomos que também movimentam essa cadeia econômica?

E se pensarmos no cenário local? Como os artistas amazonenses estão vivendo esse momento? Temos acompanhado um enorme esforço de alguns em tentar chegar às casas através das redes sociais, porém é uma disputa desleal com diversas atrações nacionais. O problema está no nacional? Isso sempre será um lugar difícil de conduzir, porém percebo que a produção cultural economicamente ativa do estado do Amazonas e em especial de Manaus, por agregar a maior concentração desses profissionais, não conseguiu entender as outras mecânicas necessárias de uma economia cultural. E se os lugares que já possuem maior dinâmica das modificações culturais estão vivendo dias difíceis, como pensar os nossos artistas?

Uma nova cultura nascerá, com novos dispositivos de acesso e alcance que não serão rápidos e nem de baixo custo. O mercado se tornará ainda mais exigente do que vai querer ver nos teatros e casas de shows, assim como nas suas tvs e em seus aparelhos telefônicos. Se isso acontecerá isoladamente ou em grupo, aos poucos iremos descobrir, porém, temos que tirar desse momento uma grande lição de nos tornarmos ainda mais profissionais nessa arte, que tenho certeza ajudou muita gente nesse período de isolamento.

*Artista, gestor cultural e professor universitário., Formado em Gestão Cultural pela Universidade Cândido Mendes, Técnico em Artes Cênicas pela Universidade federal do Ceará (UFC), graduado em Dança pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA), Mestre em Letras e Artes pela UEA e Doutorando em Administração de Empresas pela Universidade de Fortaleza (Unifor).Professor dos cursos de Graduação em Dança e Teatro e Coordenador da Pós-Graduação Latu sensu em Gestão e Produção Cultural da UEA.

 


Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.