Terça-feira, 14 de Julho de 2020

Da distopia à realidade: romance parece prever momento atual

Crônica de Myriam Scotti fala sobre obra do imortal Ignácio de Loyola Brandão: 'Desta terra nada vai sobrar, a não ser o vento que sopra sobre ela'


03/05/2020 às 11:45

Por Myriam Scotti*

“O que Deus fazia no escuro, antes de criar o mundo?” A frase é repetida em algumas passagens do romance “Desta terra nada vai sobrar, a não ser o vento que sopra sobre ela”, escrito pelo imortal Ignácio de Loyola Brandão. É uma pergunta capciosa tanto para as personagens que recebem essa indagação ao longo das páginas, quanto para nós leitores, arremessados à reflexão, desde o início da leitura. Caso não provocasse incômodo, o romance não teria sido escrito por Ignácio, para quem nunca bastou contar, é preciso contar espetando.
Em dezembro de 2019, depois de mediar um bate-papo sobre o fazer poético, durante a feira de livros promovida pelo Sesc-Am, me despedi apressada dos colegas para chegar a tempo de escutar a fala de Ignácio e também conseguir o autógrafo no meu exemplar recém-adquirido. Plateia atenta, afinal, é impossível não querer ouvir o que o escritor tem a dizer, sobretudo quanto ao momento político pelo qual passamos no País, desde as eleições de 2018. O que eu não sabia, no entanto, é que naquele sábado chuvoso, estaríamos todos, diante de um mago, alguém que previu e escreveu sobre o que estamos vivendo nos últimos dois meses. Desta feita, não poderia inaugurar minha participação neste blog com a indicação de outro livro que não fosse esse, tão urgente para a análise sobre o que nos fez chegar a esse momento dantesco.
Da mesma forma que outros escritores de distopias, Ignácio parece que viajou no tempo e voltou para escrever seu romance, embora desconfie que os escritores distópicos, por serem grandes observadores do mundo, funcionem feito matemáticos: olham o cenário, passam horas da vida calculando e preveem com destreza os próximos acontecimentos sociais. 
Sem spoiler, apenas com o intuito de instigar, pincelo o romance: Felipe e Clara, protagonistas da história, terminam o relacionamento e se perdem um do outro e também deles mesmos, dando início a uma busca, ou melhor, a um jogo de gato e rato, enquanto um Brasil (mais ou menos) fictício, se desmorona, sem ministérios, com impeachments mensais, juízes que ninguém conhece os rostos, câmeras em todos os lugares e chips implantados que captam, inclusive, pensamentos, além de caminhões carregados de corpos, por conta de uma doença que se espalha pelos quatro cantos. Mera coincidência? 
O fato é que a literatura de Ignácio é irônica e provocativa, tanto quanto o próprio autor. A acidez com que descreve os acontecimentos nos leva, às vezes, à perplexidade e à constatação de que não estamos muito longe de nos tornarmos personagens de seu romance. Por fim, já que leitura é reflexão, deixo uma das tantas frases desafiadoras do livro para martelar em nossas mentes: “como as pessoas conseguem se olhar no espelho?” 
Boa leitura (ou aventura)! Até mês que vem.

 

*Poeta e escritora amazonense, Myriam Scotti nasceu em Manaus. É formada em em Direito pela Universidade Federal do Amazonas. Iniciou na literatura infantil e depois, em 2018, lançou “A língua que enlaça também fere”, reunião de seus poemas, pela editora paulistana Patuá. Além de livros impressos, a autora publicou diversos e-books pela plataforma Amazon.


 


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