Sexta-feira, 30 de Outubro de 2020

Afinal, para que serve a literatura?

No artigo dessa semana, a escritora Myriam Scotti fala sobre a importância da leitura e como ela tem sido buscada como forma de se escapar da realidade desoladora


07/06/2020 às 15:06

Por Myriam Scotti*           

 

         Cada vez mais, vive-se um tempo apressado, tecnológico, ansioso por novidades e, por isso mesmo, contaminado de preocupações e exigências que dificilmente nos permitem a contemplação de um fim de tarde, ou mesmo aquela conversa demorada em volta da mesa, a fim de sabermos mais sobre o dia de quem nos importa. Seja porque costumamos estar perdidos em nós mesmos,  com o olhar quase sempre vidrado em telas, seja porque estamos atrasados para mais um compromisso, o fato é que desejamos o pronto e o resumido, de modo a darmos conta de todas as tarefas que a modernidade nos impõe. Entre tantos afazeres, a leitura foi perdendo lugar na rotina da grande maioria.

            No entanto, esse cenário sempre corrido, pertence a um passado recente, antes de sermos surpreendidos pela pandemia. A obrigação de ficar em casa e o consequente enfado que isso por vezes nos provoca, acabou trazendo a possibilidade deles, os livros, voltarem a ser, em algum momento, protagonistas do nosso dia. Dessa forma, a leitura tem sido buscada como forma de se escapar da realidade desoladora, atraindo antigos e novos apaixonados pela palavra. Muito além de mera distração, ler se transformou no hiato que nos permite desacelerar, para entrarmos em outro ritmo, um ritmo que nos permite, enfim, contemplar a sonoridade do que se ouve, mergulhar em outros ambientes, em outras questões, e assim, invadidos de perplexidade, começamos a ler mais que palavras bem encadeadas, lemos também a vida pelos olhos do escritor. Isso porque, tanto a prosa quanto a poesia conseguem ir de encontro ao óbvio, permitindo-nos enxergar o comum, o ordinário, como se fosse a primeira vez. Não à toa, a literatura sobrevive e atravessa o tempo como eco dos flagelos de esperança que ainda nos restam, porque o viver comum, sem arte, anda quase intragável.

            Longe de apenas entreter, portanto, a literatura nos traz a possibilidade de vários caminhos se abrirem diante de nós através das dúvidas que ela suscita. A palavra escrita se torna então a faísca que se acenderá dentro de cada leitor e isso nunca foi tão urgente quanto agora. Quando percebemos as mudanças que os livros nos suscitam, é um caminho sem volta, porque a literatura não existe como fim, mas como luz a guiar nossas decisões e posicionamentos. Para mim, que antes de ser escritora, sou leitora das mais ávidas, a melhor definição sobre a importância dos livros em nossas vidas, é a do autor americano William Faulkner, a quem reservo as últimas linhas: “O que a literatura faz é o mesmo que acender um fósforo no campo no meio da noite. Um fósforo não ilumina quase nada, mas nos permite ver quanta escuridão existe ao redor”.

            Que tal começar uma nova leitura? Até mês que vem!

 

 

Sobre Myriam Scotti

*Poeta e escritora amazonense,  nasceu em Manaus. É formada em em direito pela Universidade Federal do Amazonas. Iniciou na literatura infantil e, em 2018, lançou “A língua que enlaça também fere”, reunião de seus poemas, pela editora paulistana Patuá. Além de livros impressos, a autora publicou diversos e-books pela plataforma Amazon.


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