Sexta-feira, 27 de Novembro de 2020

A Febre Ferrante

A cronista Myriam Scotti fala sobre Elena Ferrante, uma das escritoras contemporâneas mais lidas dos últimos tempos


05/10/2020 às 18:14

Myriam Scotti*
Especial para A CRÍTICA

Entre 2016 e 2017, imersa num curso de escrita criativa, o tempo para me dedicar a livros - sem o intuito da aprendizagem - se tornou escasso. Ainda assim, tentava me manter em dia com as novidades literárias e vez ou outra conseguia encontrar uma brecha para ler algo além do obrigatório. Engajada na procura, costumo recorrer às ferramentas hoje fundamentais para a descoberta de novas vozes contemporâneas, os aplicativos Instagram e YouTube, por meio de seus milhares de perfis dedicados à literatura. Os booktubers e suas resenhas mais dinâmicas do que as escritas pelos críticos literários, vem ganhando cada vez mais seguidores, promovendo maior incentivo à leitura, devido ao uso de uma linguagem informal para se comunicar com jovens e adultos interessados em (re)descobrir o prazer de ler. E foi justamente em um desses perfis que Elena Ferrante, uma das escritoras contemporâneas mais lidas dos últimos tempos, atravessou o meu caminho para nunca mais sair. Ao rolar a tela do celular, me deparei com a capa intrigante e em estilo retrô (a qual pensei, confesso, “meio cafona”), acompanhada de uma pequena resenha sobre a obra, mas que logo despertou meu interesse. Corri à livraria mais próxima e comprei o primeiro volume da tetralogia napolitana “A amiga genial”.

O enredo é sobre a amizade entre duas mulheres, desde a infância até a velhice, narrado em primeira pessoa pela protagonista Elena Greco. Ao longo de quatro volumes, que somam mais de 1600 páginas, a autora desfia a história como um novelo de lã, e pasmem, não vemos o tempo passar. Como todo bom romance de formação, acompanhamos o crescimento das personagens ao longo das décadas, cujo pano de fundo é uma Itália devastada pela guerra e pelo fascismo. As avaliações dos governos de cada época vivida pelas personagens, embora não sejam o objetivo principal do romance, são descritas de modo a captarmos as críticas.

Elena Ferrante, conhecida pela escrita realista e crua, desenvolve a psique de seus personagens com tamanho brilhantismo, que se chega a pensar se tratar de autobiografia. Como quem está com a faca sempre afiada, a autora cutuca o leitor quando descreve de forma destemida até os mais sórdidos pensamentos de suas protagonistas. E isso não se restringe à tetralogia.

Todos os romances de Ferrante tem essa característica, e, por isso, facilmente nos sentimos acolhidos por - enfim - alguém ter a coragem de escancarar verdades sobre assuntos delicados, os quais, muitas vezes, preferimos romantizar por supormos o quanto seria feio expor o que de fato pensamos.

De lá para cá, tragada por essa escrita singular e, em algumas circunstâncias, ferina, li toda a obra da autora. De seu primeiro romance (Um amor incômodo, 1992) até o último (A vida mentirosa dos adultos, 2019), recém-lançado no Brasil pela editora Intrínseca, após um acirrado leilão, Elena Ferrante causa comoção pelo mundo inteiro, tanto que ganhou um movimento dedicado a ela, o Febre Ferrante.

Pessoas das mais diversas, inclusive muitas delas famosas, declararam seu amor pela escrita avassaladora da italiana.

Ler Elena Ferrante é uma experiência das mais ricas, principalmente para aqueles que desejam ser incomodados nas suas certezas, a fim de reabrir as feridas mais íntimas ainda não cicatrizadas. Sua escrita potente nos desconcerta ao longo das páginas. Como leitora ávida, afirmo ser impossível sair ileso depois da leitura de quaisquer de seus livros.

Além de textos intrigantes, a própria autora é em si uma grande personagem. Elena Ferrante é um pseudônimo que, ao longo de quase trinta anos, vem fazendo um estrondo no mercado editorial. As especulações sobre a verdadeira identidade da escritora são uma história à parte e rendem bons capítulos. Há quem afirme que a tradutora Anita Raja seja a verdadeira autora por trás do pseudônimo, mas, a dúvida perdura e os fãs mais fiéis não anseiam a descoberta. Para eles, e também para a italiana, a melhor maneira de se expressar é por meio da palavra escrita, portanto, sua identidade é o que menos importa.

O sucesso da tetralogia napolitana foi tanto que a gigante HBO é responsável pelas duas primeiras temporadas da série “A amiga genial”, a qual tem arrebatado milhões de fãs da escritora por tornar “real” a Nápoles descrita em seus romances. A cidade, inclusive, nos últimos anos, tornou-se roteiro de viagens para os #ferrantelovers. Eu mesma estive lá em 2018 percorrendo as ruas onde Lila e Lenu passaram boa parte de suas vidas e me emocionei ao caminhar pelo cenário que antes apenas imaginava enquanto lia.

Depois de me dedicar à obra da autora, saí em busca de outras vozes que a tinham inspirado e também daquelas inspiradas por ela e assim pude me aproximar ainda mais da literatura italiana, a qual conta com nomes como Elsa Morante e seu tocante “A ilha de Arturo”; Natalia Guinzburg, cuja escrita enxuta não deixa de ser comovente ao abordar suas próprias relações familiares; Igiaba Scego, autora jovem e ousada que descreve uma Itália ainda desconhecida para alguns; Domenico Starnone, romancista de mão cheia e apontado como marido e coautor de Elena Ferrante.

Sem mais delongas, deixo aqui o convite para se aventurarem e também se confrontarem por meio da surpreendente obra italiana. Garanto uma experiência de reflexão das mais intensas. E, se me permitem a intromissão, sugiro começar por “Dias de abandono”, a história de crescimento e superação de Olga é das mais bonitas. Boa leitura!

 

 

 

 

 

 

*Myriam Scotti -Nasceu em Manaus, formou-se em direito pela Universidade Federal do Amazonas e exerceu a advocacia até 2010. Das suas vivências com o filho, surgiram crônicas e histórias infantis, momento em que resolveu dedicar-se totalmente à escrita e publicar seus primeiros livros. A poesia chegou por acaso e em 2018 lançou “A língua que enlaça também fere”, reunião de seus poemas, pela editora paulistana Patuá. Além de livros impressos, a autora publicou diversos e-books pela plataforma Amazon.


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