Quarta-feira, 28 de Outubro de 2020

Velho tempo novo (2)

Por: Lourenço Braga / "Não foram mais os reis, imperadores, príncipes, presidentes os que de fato se viram detentores de poder, os de lugar de destaque na sociedade, capazes de adotar as decisões que de fato interessam"


04/06/2020 às 16:03

Em tempo de pandemia, o automóvel deixou de ser essencial e até foi preciso cuidar para não descarregar a bateria ou secar os pneus à vista do tempo que passou sem uso, na garagem às vezes empoeirada como costuma acontecer com as coisas inúteis. O escritório, para muitos, mudou de lugar e se fez a descoberta, tão simples, de que a utilização de instrumentos e tecnologias disponíveis permite o home office, com a mesma produtividade e eficiência de quando se cobrava o registro de ponto, o cumprimento rigoroso da integralidade da jornada de trabalho, as horas extras... e as bancadas, como as poltronas, giratórias ou fixas, os escaninhos, as divisórias, tudo isso foi ficando obsoleto em algumas salas  que viraram teatros sem palco, sem atores e sem público. As mesas de reunião, ovaladas, redondas ou extensas, deram lugar a simples câmeras de transmissão de áudio e imagem e a teleconferência, tão pouco usada embora até antiga, passou a fazer rápidos, eficazes, ainda que nem sempre agradáveis, os contatos, os discursos, as discordâncias e até as zangas, as reprimendas, as decisões ou os famosos adiamentos que as cansativas reuniões tradicionais bem conheciam. Assim ficaram também as audiências e outros atos processuais, inclusive sessões plenárias de órgãos colegiados do Judiciário, do Legislativo, do Executivo e de empresas, públicas ou privadas. As entrevistas passaram a guardar distâncias até quilométricas entre seus agentes, com o milagre da telefonia celular, e as aulas não mais se deram nas salas nem sempre bem refrigeradas das escolas de todos os níveis.

Tudo isso deu  ao homem da era da pandemia tempo maior para pensar em coisas de que se distanciara na correria desenfreada do novo milênio e o acesso franco à informação veloz de nossos tempos fez que muitos compreendessem que o velho e cansado lucro, às vezes desmesuradamente perseguido, podia também consistir em ampliação, até em criação, do cumprimento da tradicional função social e a solidariedade aguçou-se no coração e na mente dos que, potenciais vítimas da doença, como todos, buscaram meios e formas, tecnológicas ou não, de socorrer sobretudo os que, por dever ou por contaminação, de repente se viram envolvidos no mundo do grande novo desafio. Fez-se, então, prova eloquente de que o isolamento, vertical ou horizontal, ficou restrito ao físico, sem atingir o plano espiritual.

Respiradores, EPIs, UTIs, leitos, hospitais de campanha, álcool em gel, tudo isso passou a ocupar lugar de destaque em todos os noticiários, escritos ou falados, e a máscara deixou de ser adereço carnavalesco ou instrumento hábil a esconder ações humanas negativas, como o engodo, a traição, a mentira, a bajulação, para assumir função essencial à preservação da vida humana, constituindo barreira à transmissão do vírus que a todos assusta.

E não foram mais os reis, imperadores, príncipes, presidentes os que de fato se viram detentores de poder, os de lugar de destaque na sociedade, capazes de adotar as decisões que de fato interessam, senão que cientistas, médicos, dentistas, fisioterapeutas, enfermeiros, auxiliares e serventes de enfermagem, motoristas e socorristas de ambulâncias ou de ambulanchas, verdadeiro exército do bem, da dedicação e da caridade, junto a bombeiros e policiais, fardados ou não, todos armados de amor, de piedade e de carinho extremo como agentes da vontade divina  de diminuir sofrimentos, de aplacar dores, de salvar vidas. Na retaguarda, comunicadores de todas as espécies, usando formas e equipamentos os mais modernos ou simples alto falantes das velhas Vozes espalhadas Brasil a dentro, orientando e conclamando aos caminhos menos inseguros, como o isolamento social, a higiene pessoal e a quarentena. Guerreiros valentes, abnegados e competentes no real campo de batalha contra o Corona vírus. Em todos, como nos que se reúnem espiritualmente nos horários de cultos de todas as seitas, um forte sentimento de fé no poder do Deus verdadeiro.


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