Sábado, 04 de Julho de 2020

Review do álbum 'Terra: Nosso Corpo, Nosso Espírito', do Boi Caprichoso

*Por Roberto Sena, jornalista, assessor de imprensa, e torcedor do Boi Caprichoso, e gerente de plataformas digitai do Boi Bumbá Caprichoso. Nota: 79


28/04/2020 às 19:28

1. Alma Azul e Branca |

Maurício Filho, Domingos Barbugian, Júnior Coelho

- Toada de abertura do álbum, tenta sintetizar o sentimento do álbum, mas acaba por ser mais uma toada genérica. O mais interessante da toada é a linha de baixo, no trecho que vira a segunda passada da toada.

 

2. Povo da Francesa | ★★★

Gabriel Moraes, Paulinho Du Sagrado

- Exalta a alegria do povo da Francesa, resgata o orgulho do torcedor azulado, e imprime um arranjo mais simples, pode funcionar muito bem no coro de galera no Bumbódromo. Remete muito a viagem de barco que a gente faz de Manaus a Parintins, principalmente com a frase: “Deixa tudo e vem de azul pra Parintins”, só quem já montou uma mochila às pressas com todas as peças azuis possíveis vai entender esse sentimento.

 

3. Terra: Nosso Corpo, Nosso Espírito| ★★★

Rodrigo Bitar, Ronaldo Yoshi, Conselho de Arte

- Claramente já entendemos que é uma toada para concorrer ao item Toada: Letra & Música. Desfralda o tema com uma mensagem afirmativa de resistência, onde citados os povos cabanos, povos indígenas, e diversas lideranças de povos indígenas que sofrem no dia a dia e perda de seus territórios no Brasil. Termina clamando a Mãe Terra, todo o valor do território e do planeta Terra. Destaque maior para o arranjo do que para a letra, pode pecar pelo excesso de conteúdo. A pergunta que fica: como os jurados interpretarão essa mensagem?

 

4. Energia Incomparável | ★★

Leonardo Pantoja

- Toada genérica que apresenta muitos elementos já utilizados ao longo do tempo, não estou dizendo aqui que é uma toada ruim, até mantém uma regularidade, acredito ser o ponto mais forte da toada o refrão que é explosivo e pode empolgar o torcedor azulado.

 

5. A Batalha dos Três Exércitos| ★★★★

Guto Kawakami, Gabriel Moraes, Fellipe Salviano

- Narrativa da batalha dos Wayana Apalay, contra a temível cobra Tulüperê. Porre render uma bela coreografia em um momento tribal incrível na arena. A linha percussiva da toada é interessantíssima, sem falar das transições de arranjos entre as estrofes da toada. O trabalho dos compositores flui muito bem.

 

6. É Amor, Amor| ★★★★

Cezar Moraes, Sandro Santos

- Momento sentimental, uma toada canção, cheia de cadência, essa introdução de charango é um embalo bom para o decorrer da toada, onde um teclado melódico vai revelando, na poesia apaixonada do compositor Cezar Moraes. A flecha certeira ao alvo vem na “e por mais que eu tente não acho um motivo que me afaste de você”, quem se conecta com a mensagem levanta a mão. Simplesmente: “É Amor, Amor”.

7. Guardiãs (feat. Paula Gomes)| ★★★★

Rodrigo Bitar, Ronaldo Yoshi, Conselho de Arte

- Mais uma toada temática, dessa vez revelando a voz da talentosa cantora Paula Gomes, que após o sucesso moderado de “Meu Deus é Maria”, divide os vocais da toada harmonizando com David Assayag. Aqui a mensagem me parece mais genuína quando o Bumbá da continuidade ao discurso de 2019, dando voz para uma diversidade de mulheres que muitas vezes passam e branco. Discurso que muito nos orgulha e tem deixado o nosso Caprichoso com uma visão mais democrática e humana. “Dos filhos deste solo és mãe gentil, de punhos cerrados, mulheres do meu Brasil”.

 

8. Povo Caprichoso| ★★★★

Leonardo Pantoja

- Destaque para a entrada percussiva da toada na candência das palminhas, essa levada foi uma sacada muito boa. A toada me remete a memória afetiva dos antigos festivais, e dá época mais antigo, aquela do boi luz da poronga ou lamparina. Alguma energia nessa toada me diz que pode valer para homenagear os antigos, sobretudo o coletivo de fundadores do boi, e antigas famílias que foram padrinhos e madrinhas do Boi de Parintins, brincando nos becos e vielas como diz a letra da toada. Pode ser um grande hino do Boi de Rua.

 

9. Pássaro Primal| ★★★★★

Ronaldo Barbosa

- Uma grande viagem ao imaginário da tribo Kayapó, que narra de forma metafórica e misteriosa o mítico pássaro. Aqui Ronaldo Barbosa nos leva a um mergulho imaginário de outras dimensões, um tom soturno navega na interpretação visceral de David Assayag, e o solo de guitarra completa o tom operístico, uma inovação na proposta do boi-bumbá.

 

10. O Amor Está No Ar| ★★★

Chico da Silva

- Particularmente David Assayag pode cantar qualquer coisa, até mesmo transformar um hit do passado e dar um ar mais fresh a toada de 1997, gravada originalmente pela banda Regional Vermelho e Branco, com vocal de Sidney Rezende. Destaque para os arranjos de metais da toada. Ficou bastante claro que para se diferenciar das antigas versões optou-se por uma batida mais acelerada, sem alterar totalmente a estrutura original da toada onde os instrumentos de sopro são característicos, o toque final ficou por conta de uma guitarra leve. Até acredito que houve tentativa de ousar mais na toada, porém manter a estrutura original pareceu ser mais prudente e cauteloso para não alterar uma obra que já tem sucesso ao longo do tempo.

 

11. Sentinela da Floresta| ★★★★

Gerlean Brasil, Roberto Jr., Ricardo Fabio

- Essa é a prova maior de que quando você acredita e tem fé no seu trabalho, deve ser persistente. O compositor Gerlean Brasil submeteu a toada no ano de 2016 com o título original “Ka’apora’rãga”, que acabou não selecionada. Em 2020 o compositor retrabalhou os arranjos, alterou boa parte da letra, e conseguiu dar um novo sentido, e pela benção do Deuses da música, ela foi selecionada para o repertório 2020, porque se encaixa com o tema do ano. Caracterizada como Lenda Amazônica, traz um arranjo frenético, e por vezes remete ao desespero na floresta do índios e entes da floresta. Aqui tudo funcionou em sintonia, David Assayag, arranjo e momentos de subida e descida da linha dramática.

 

12. A Estrela Que Impera (Arlindo Junior – in memoriam)| ★★

Murilo Maia, Roberto Jr., Júnior Dabela

- Uma linda homenagem a ícone do Boi Caprichoso, Arlindo Júnior, que nos deixou em dezembro passado. O sentimento de alegria que foi a marca de Arlindo foi traduzido na toada com a frase: “só quem é caprichoso, entende esse sentimento, sabe a verdadeira emoção, isso é mais do que paixão, é amor, pelo touro negro campeão”. No entanto a grandeza e importância do Arlindo Junior é infinitamente maior que esta homenagem, acredito que essa séria de homenagens pode acontecer no Festival.

 

13. Maria Fumaça| ★★★★★

Ronaldo Barbosa

- A abordagem inédita da história da “Ferrovia Madeira Mamoré”, contada de uma forma extremamente dramática, em arranjos colossais que inicia com o som da locomotiva deslizando sobre os trilhos, uma verdadeira trilha hollywoodiana de um filme de Steven Spielberg ou James Cameron. Outro destaque vai para o coro uníssono com muito sussurros harmoniosos e camadas dramáticas representando uma Ópera Épica. Aqui David Assayag sobra com versatilidade no canto, utiliza tons graves imprimindo o tom soturno que pede a trilha.Uma métrica musical nunca vista no universo do boi-bumbá. Não é uma toada, porque transpassou os limites musicalmente do ritmo. Coisas que só Ronaldo Barbosa consegue realizar.

 

14. Direitos da Terra| ★★★★

Paulinho Du Sagrado, Gabriel Moraes

- Ah Paulinho. Uma toada que já inicia com uma flauta alertando a humanidade para que sejam respeitados os diretos da terra, e os verdadeiros donos do território. A linha percussiva do Paulinho do Sagrado já virou uma marca do compositor, nesta toada ele divide a composição com o filho, Gabriel. O fator curioso da toada é como conseguiram arranjar uma e dar harmonia para uma letra mais extensa. As vozes de coro transmitem bem o sentimento de clamor contida na letra da toada. Se tem um cara que consegue passar mensagem sobre como o novo dia será, é o Paulinho Du Sagrado, ele chega e ser profético.

 

15. Rio de Alegria|

Maurício Filho, Domingos Barbugian, Júnior Coelho

- Toada de rimas fáceis, um tanto que óbvias, não empolga, a formula de anos anteriores aqui utilizada parece não dar liga ao transcorrer da toada.

 

16. Caboclas (feat. Paula Gomes, Luanita Rangel & Cirleane Ferreira)| ★★★★

Ronaldo Barbosa Júnior

- Eis um arranjo curioso, e com vocal 80% feminino a toada é uma ode a vida da mulher cabocla da Amazônia, seus anseios e seu cotidiano. Ao ouvir diversos versos da toada passa um filme da realidade da mulher canoeira, pescadora, juteira, farinheira, artesã, romeira e caprichosa. Um acerto do compositor em mesclar várias faces da mulher amazônica, e intitular simplesmente de Caboclas, tal qual a riqueza do termo. A sacada de colocar três belas vozes transmite um sentimento ainda mais real.

17. Pajé de Guerra| ★★★★★

Ronaldo Barbosa Júnior

- Depois com o hit “Waiá-Toré” de 2019, que foi trilha para o inesquecível “Ritual Kalankó – O Canto para Jurema Sagrada” e também para a evolução do Pajé, Netto Simões, o expoente compositor Ronaldo Barbosa Júnior, aposta forte na temática do Pajé. Dessa vez é apresentado um Pajé de lutas e batalhas, o arranjo da toada é fabuloso, a entrada inicial do teclado já nos transporta para uma dimensão cósmica, junção perfeita para o primeiro verso ao ressoar o canto: “Iauaraeté o pajé invocou, voz do mato mandou...”, esse é só início de uma toada que vai desmontando todos os padrões de uma toada convencional. Momento simbólico da toada é na parte do verso: “És metamorfo entre as trincheiras”, uma paradinha surreal. E tudo se completa com o solo de guitarra impecável de Neto Armstrong, imprimindo uma ópera rock moderna.

 

18. Sentimentos| ★★★★

Thereza Cristina Bulcão, Thauan Bulcão, Kamila Azevedo

- Uma poesia acertada, vocal sentimental de David Assayag, chega a ser bem tocante, é uma toada toda certinha e cadenciada. Ela cumpre o papel poético que é narrar os movimentos que compõem as torcidas e admiradores. O que me deixa em dúvida é: a toada foi feita para tocar na arena ou só para marcar nostalgicamente a temporada dos ensaios? Fica o questionamento.

 

19. Paqarina - Consciência Tribal| ★★★★★

Guto Kawakami, Malheiros Júnior

- Essa é toada de cara já virou uma xodó. Explico porque, tem tudo o que aprecio numa boa toada, uma bela introdução, tem o David Assayag, cantando no grave, o arranjo ligado a cultura andina, que é uma das temáticas que mais admiro no universo do Boi-Bumbá, e que virou marca registrada do Caprichoso. Outra boa característica é a construção da letra que adequa a diversidade das estrofes. No final aquele combo de tribos numa métrica funcional. Tem como não amar? Aplausos. Viva a Mãe Terra!

 

20. Waranã| ★★★★★

Emerson Maia, Emerson Maia Filho

- Confesso que me emocionei com os versos dessa toada. Muito por conta de uma missão profissional que realizei no final de 2018 em Urucará, um dos municípios produtores do fruto do fruto do Guaraná. Lá pude conferir e documentar a atividade do Guaranácultor aquele que colhe os frutos do Waranã. Voltando a letra, os compositores traduziram bem a realidade do sentimento das plantações de Guaraná, dos guerreiros Sateré-Mawé, e da prosperidade que o guaraná pode trazer a comunidade que o produz. “Waranã, teus olhos tão profundos, waranã, esperança mawé, waranã, exemplo para o mundo, waranã, consciência pro futuro”.

 

21. Artilharia Azulada|

Cezar Moraes, Caio Almeida, João Paulo Beltrão

- A introdução de metais parece dar o tom festivo da toada, porém a letra passa um pouco longe dessa animação, por vezes deixando a toada com pitadas melancólicas. O refrão tenta resgatar a alegria da galera, mas fica só na tentativa mesmo, não senti a explosão que a proposta de uma toada de galera normalmente traz.

 

22. Reahú - Comunhão do Espírito| ★★★★

Guto Kawakami, Ligiane Gaspar

- Numa sequência de temáticas dos Yanomami, mais uma vez o Caprichoso nos traz uma nova ritualística desse povo, que muito tem para ensinar a humanidade. A narrativa Reahú, revela o rito osteofágico, do povo Yanomami. A introdução me remete a algo do passado, revivido nesta toada. Na variação de toques da percussão a toada começa a ficar mais intensa e interessante e tem uma espécie de comemoração marcando o sucesso da ritualística com o entoar de do sax e trompete, com um arranjo muito familiar uma banda internacional “Florence + The Machine”, que aprecio bastante.

 

23. A Chama Azul| ★★★

Chico da Silva

- Nada mais simbólico que encerrar o álbum com uma toada poética do Chico da Silva, que retrata ludicamente as propriedades curativas da chama azul, do raio azul, bem como a elevação do espírito, a exaltação do sol, galáxias, planetas, e o reino celestial. Só Chico da Silva para nos fazer viajar na poesia e ficar deslumbrado com a grandeza do universo.

Informações 

O álbum CAPRICHOSO 2020 “Terra: Nosso Corpo, Nosso Espírito”, foi lançado na sexta-feira, 27 de março de 2020 nas principais plataformas de streaming de áudio. Acesse a sua e ouça.

 

Spotify▶️https://open.spotify.com/album/0dl3171rBoaF9venpLKKjc?si=feqEWDFeQA-Lg_q2z_6hCA

 

Deezer▶️https://www.deezer.com/album/138188902

 

Apple Music https://music.apple.com/tt/album/terra-nosso-corpo-nosso-espirito/1505166359

 

Tidalhttps://tidal.com/browse/album/135506552

 

YouTubeMusichttps://music.youtube.com/playlist?list=OLAK5uy_lYqBMCRg70qsaQxk4SC40F1-S86DtFm10

 

YouTube▶️https://youtu.be/AIIvzDTmLZY

 

Smart Link ▶️https://sl.onerpm.com/8499213860

 

*Opinião meramente pessoal do jornalista, Roberto Sena, não reflete o pensamento global da nação azul e branco, tampouco da diretoria da Associação Cultural Boi Bumbá Caprichoso, da qual faço parte.


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